Naquela tarde de 24, as crianças vergavam-se ao fascínio da natureza.
Dentro das casas ouvia-se o brilhantismo de sons natalícios. Os músicos faziam soar cascatas melódicas moldadas de espírito e amor. António Furão, no bombardino, tocava inspirado no íntimo da sua arte. “Noite Feliz” ouvia-se do clarinete de Francisco Martins e Aníbal, embalados nos sons adornados do Furão. Mais abaixo, outros instrumentos se associavam numa união fraterna. A rua tornara-se numa espécie de sinfonia musical para a grande noite tão ansiada por todos.
Ao fim da tarde, já era enorme o cheiro intenso a rabanadas, bolos de bacalhau e outras iguarias apetecíveis. A canalha já se lambia…havia gente que ainda passava apressada para os últimos preparativos da ceia. Com os socos enterrados na neve, a vontade de caminhar era forte e ninguém esmorecia com o peso do calçado.
Os rapazes gostavam de crescer com a neve acumulada debaixo das chancas. Olhos de espanto revolviam a imaginação, procurando palavras de saudação ao Nascimento do Menino Deus.
Já noite cerrada, um vulto de mulher passava depressa, emborcando uma pingoleta de aguardente…” lá vai a Figa Seca enfrascadinha”, ironizava a ti Josefina…
As árvores despidas do Conde de Mateus, não buliam. Tudo na natureza se concentrava no presépio e na magia do Natal. O amor imperava entre os Homens de boa vontade. As pessoas reconciliavam-se de azedumes antigos. Era o milagre do Natal. Nessa tarde, os cavadores deixaram as terras e os arados mais cedo. O vinho da ceia ia reconfortar as lágrimas das tristezas e das desgraças dos que sofriam: casais cansados dos apertos económicos e mulheres fartas de terem filhos…a grandeza da fogueira ia aquecer como o amor forte que uma mãe dá a um filho. Na noite de consoada havia abundância de comida, e as barrigas, na sua proeminência, mostravam-se fartas por alguns dias. O Natal e a Missa do Galo gozavam de muita fama pela elevação artística e espiritual de um povo entregue aos deveres cívicos e religiosos.
A freguesia de Mateus sempre teve natais bonitos e participativos. Não havia fartura de comida nem vícios gastadores. Havia sim, mulheres encantadoras, à imagem das santas mais milagreiras. Havia motivos para que a alegria na vida social estivesse presente pelas atividades das duas bandas filarmónicas e pelas comédias superiormente ensaiadas pela D. Mariazinha. Nas missas, o padre Faceira galvanizava os fiéis com uma homilia aberta de imagens felizes e libertadoras.
O Natal é ainda hoje celebrado em todo o mundo por milhões de pessoas. O povo de Mateus pode estar orgulhoso do seu passado e dos natais que sempre soube construir.





