Não haverá suficientes palavras depreciativas no nosso vocabulário para descrever, ou definir, o que ali se passou. Já alguém disse que lobos nunca serão cordeiros e a extrema-direita, em Portugal e no resto do mundo, esforça-se para atrair o ódio e o desprezo para as suas fileiras. A tática é tão óbvia como rasteira: 1) humilhar; 2) desgastar; 3) intimidar. Pergunto-me se alguém dentro daquele partido se sente como o oficial, no ‘skecth’ humorístico britânico de Mitchell & Webb, que tenta convencer o seu camarada que eles, oficiais das SS Alemãs, são os “mauzões”, e se não acredita, que lhe explique porque é que têm caveiras nos chapéus dos seus uniformes. Se calhar não.
É sempre espantoso como ataques a minorias são um tema recorrente destes partidos.
Com certeza que para eles será inevitável, um reflexo pavloviano impossível de suster. Mas é ainda mais assombroso a indiferença da gente normal que, ainda assim, os continua a apoiar. Deixem-me dar-lhes outro exemplo. Também recentemente, o Rei Trump emitiu uma ordem executiva para impedir os atletas transgénero de competir em desportos femininos. Esta ordem vem no seguimento de uma proposta de lei de 2023, na qual a administração Biden propôs impedir as escolas de proibir os atletas transgénero de competir. Contudo, a proposta e os seus méritos ficaram atolados em processos judiciais, e foi implementada apenas brevemente em alguns estados, o que levou a administração Biden a retirar os regulamentos em dezembro, antes da posse do Rei Trump, reconhecendo que estes não teriam sucesso. O decreto de Trump é, então, apenas performativo. O mais provável é que a maior parte dos estadunidenses não saiba, com nenhum grau de certeza, se é permitido ou não aos atletas transgénero competir. Daí Trump fazer de conta que é, ao proibir uma coisa proibida. Este assunto, que comoveu as almas e tomou corações, tornou-se uma fixação coletiva, despertando paixões e medos que só podem ser irracionais.
Sabe quantos atletas transgénero existem nos EUA a nível universitário? Menos de 10, num universo de 510.000 atletas. Isso implica que a probabilidade de algum atleta universitário competir com um atleta transgénero é de aproximadamente 0,002% (ou 1 em 50000).
Apenas uma ordem de grandeza maior da probabilidade de lhe cair um raio na cabeça (0,0002%). E incomensuravelmente menor do que a possibilidade do asteroide YR4, com capacidade de destruir cidades inteiras, atingir a terra em 2032 (2,3%).
A humanidade sempre se debateu com problemas de discernimento. Por vezes não diferenciamos a realidade da fantasia. Mas as sociedades têm de criar mecanismos para construir bom senso. Senão, no final de tudo isto, o que é que vão alegar, insanidade? Ou que foi apenas, como disse Hannah Arendt, a banalidade do mal?



