Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2021
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

Unesco: dia da Língua Portuguesa (II)

Ainda a propósito da comemoração do Dia Mundial da Língua Portuguesa (LP) cabe assinalar alguns aspetos de ordem pragmática e afetiva. A LP enquanto espaço comum de comunicação, convergência histórica e de afeto deveria servir de base a formas de cooperação a nível do conhecimento que emana das universidades e dos centros de ciência para […]

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Ainda a propósito da comemoração do Dia Mundial da Língua Portuguesa (LP) cabe assinalar alguns aspetos de ordem pragmática e afetiva.

A LP enquanto espaço comum de comunicação, convergência histórica e de afeto deveria servir de base a formas de cooperação a nível do conhecimento que emana das universidades e dos centros de ciência para além de potenciar negócios e desenvolvimento entre os países da lusofonia.

Sabemos que nem sempre é assim e que, por vezes, há amuos e atitudes de costas voltadas entre países que deveriam cooperar de forma franca e aberta e outras, complexos pós-coloniais mal resolvidos.

O maior esteio da LP como já referimos, é a Literatura seja escrita ou oral e a memória que regista.

Desde as cantigas de amigo, passando pelo trabalho árduo dos cronistas, alguns deles embarcados no sonho das caravelas, a LP foi ganhando espaço e desenhando a sua singularidade lexical e fonética.

Obras matriciais como os Lusíadas de Camões e a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto encorparam-na e desenharam a silhueta e a densidade singular do seu corpo.

Garret enobreceu-a no Teatro, Alexandre Herculano no romance histórico e no estudo da História; Camilo elevou-a ao paroxismo no romance, Antero de Quental nos sonetos filosóficos, Junqueiro na poesia e no protesto social.

Desde o Sermão da Sexagésima de António Vieira ao Conto Civilização de Eça de Queiroz, a LP cresceu, galgou continentes e atravessou mares levando o testemunho do nosso povo através dos navegadores.

Aquilino ampliou-a com os falares das gentes do campo, Pessoa aprofundou-a no pensamento: a minha Pátria é a minha Língua.

Redol, Manuel da Fonseca e tantos outros neo-realistas fizeram dela uma arma de denúncia em prol dos mais desfavorecidos.

Torga esculpiu-a convertendo-a numa espécie de portal gótico ou num altar barroco; Saramago elevou-a em nome de todos à conquista do Nobel.

Do outro lado do Atlântico, Jorge Amado deleitou-nos com a suavidade fonética do português do Brasil, Machado de Assis deu-lhe corpo e o meu amigo António Torres, uma espécie de Torga do Brasil mergulhou com ela nas raízes do seu povo.

Agustina deu-lhe dimensão criativa, Lobo Antunes desconstruiu-a.

A norte, os nossos irmãos galegos e a Academia Galega da Língua Portuguesa, que coopera culturalmente com a CPLP honram-na pela sua sonoridade e variedade lexical que nos une num abraço intemporal de fraternidade. Lembro o trabalho literário dos meus amigos Alfredo Ferreiro e Pedro Casteleiro, poetas, Xavier Alcalá Navarro, romancista e Carlos Quiroga, escritor e ensaísta. Toca-me o seu amor por Portugal.

E assim a LP ganhou o tamanho dos nossos sonhos e esperanças e dos continentes onde deixou as suas raízes. Nenhum escritor a desdenhou porque contém todas as palavras.

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