Sábado, 3 de Dezembro de 2022
0,00 EUR

Nenhum produto no carrinho.

Victor Pereira
Victor Pereira
Pároco. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Ver só pecado é pecado

O cantor Dino Santiago, numa entrevista à Sic, afirmou que a educação familiar católica que teve, possivelmente rígida e excessiva, o marcou pela negativa.

-PUB-

Viveu sempre em conflito interior entre aquilo que sentia e vivia e aquilo que a religião católica propunha. O sentimento de culpa e de pecado estava sempre muito presente e condicionava muito os seus sentimentos, atos, opções e decisões. De alguma forma, experimentou que a educação católica era opressora, castradora, controladora, claustrofóbica.

Já várias pessoas expressaram em jornais e nas redes sociais como se sentiram sempre em choque com a educação católica que tiveram, vendo-a como um espartilho que abafava a força e a liberdade da vida. Quando falamos com as novas gerações, a imagem que sublinham da Igreja é que parece que está sempre do lado do contra, só quer deitar abaixo, tem obsessão por proibir, controlar, julgar e condenar, ver pecado em tudo, parece sempre desconfiada da natureza humana e da vida, lança o pessimismo e o negativismo sobre os apetites e os prazeres da vida, propõe uma moral que parece inimiga da vida, quase convida ao medo de viver.

Não faltam desabafos de pessoas que bateram à porta da Igreja e se sentiram profundamente mal recebidas, sendo-lhes dito sem mais que vivem em situação de pecado, que há certos serviços, graças e bens que lhe estão vedados, que não há muito a fazer enquanto não mudarem de vida. Regressaram a casa com a espinhosa sensação de que andam sempre em contramão e desencontradas com Deus e com a vida.

A Igreja sabe que tem de ser consciência crítica da vida e da sociedade, como Jesus o foi e como o seu Evangelho assim o exige. Como dizia aqui há uns tempos um cardeal, a Igreja deve ser um aguilhão, que desinstala a leviandade como vemos a vida e a deixamos arrastar para o comodismo, o egoísmo, a injustiça e a desumanidade. Mas também não podemos limitar-nos, como Igreja, a apresentar um cardápio de pecados e ver a vida pelo lado negativo, pela infração, pelo delito, pelo pecado, a ser uma entidade fiscalizadora, e teremos muito pouco a dizer ao mundo se nos limitarmos a atribuir pecados e a lançar anátemas.

A Igreja é portadora de uma mensagem salvífica e libertadora para a pessoa humana. É isso que primeiro deve sobressair na sua retórica e na sua educação nas famílias e nas suas instituições. A igreja, primeiro que tudo, deve proclamar o encanto e a beleza da vida, a alegria de viver, a grandeza do ser humano e da sua natureza.

Mais Lidas

Subscreva a newsletter

Para estar atualizado(a) com as notícias mais relevantes da região.