Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Vidas

“O outono de 1966 ceifou em Mateus perto de 40 vidas” nas palavras ditas pelo arcipreste Faceira no mês de dezembro desse mesmo ano.

Nas noites longas do amadurecido outono, as casas eram fartas de bebés que, desesperados, procuravam o leite das mães que muitas vezes não o tinham para dar, porque elas próprias viviam na secura de uma vida de dificuldades … as mães eram heroínas e nas noites mal dormidas quase não mexiam as pálpebras, mas cantavam toadas de adormecer, ladainhas de fadas e de santos. “Oh ró, ró,” ronronava a mãe. E os olhos cansados cerravam-se.

Ao fundo das cozinhas escuras, pintadas de fuligem, os grilos acolhiam-se no seu canto embalador, doce era o seu trinado, arrastando para um sono rápido. Aquela manhã distante estava fria. Os últimos figos intumesciam nas figueiras, as medas secavam ao sol. Recolhiam-se as carumas. Cheirava ainda a mosto, a celeiro e a lenha. As videiras enviuvavam com a morte das folhas.

Continuava a chover. Uma chuva cadenciada, quase musical ajudada pelo toque de um bombardino e do rufar esgalhado de um músico de caixa.

Teimosa era a chuva, agora tocada pelo vento. As árvores despojadas do fruto não podiam com o peso da humidade. Ao longe, as nuvens negras do Marão vinham ameaçadoras sobre Mateus e num arranco de trovões ouviam-se gritos de crianças a correrem para casa, seguindo-se vozes estilhaçadas de toda a bicharada da aldeia.

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Os cavalos do Zé “cigano” ficaram amedrontados, sobretudo quando os raios caíram perto dos tanques, fazendo faísca no para-raios da cabine. Perante tamanha tormenta, uma mulher gritava esbaforida: “Magnífica a minha alma…”vezes sem conta a pobre criatura expeliu aquela expressão.

Os sinos voltavam a tocar, lembrando uma vez mais que alguém tinha morrido: “Também tá a chegar a minha hora”, dizia uma anciã vinda do povo… “com a minha tuberculose não irei longe”.

“Deixa-te de lamúrias, tu tens de criar ainda os teus netinhos que precisam bem de ti. Eu sei que a tua filha morreu cedo devido a essa malvada doença, mas Deus há de dar-te forças Rosalina”. “Ó ti Maria deixe-se disso, estou preparada para tudo. A minha filha… ai a minha filha, rezo por ela todos os dias. De tão magra mais parecia um passarinho sereno e santo, uma alma que soube sofrer com resignação a doença maldita.”

A trovoada dissipou-se mas outras virão. Nesse outono distante várias vidas se despediram levadas pelas doenças que atingiram os mais pobres e vulneráveis. Mas tudo se renova e a aldeia voltou a ganhar o bulício próprio de um dia de primavera.

Os olhares espiritualizaram-se porque a vida é a eterna luz da esperança que nunca morrerá. A vida, são pingos de emoções que ora nos afagam, ora nos matam.

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