Terça-feira, 29 de Novembro de 2022
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Vidas

“O outono de 1966 ceifou em Mateus perto de 40 vidas” nas palavras ditas pelo arcipreste Faceira no mês de dezembro desse mesmo ano.

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Nas noites longas do amadurecido outono, as casas eram fartas de bebés que, desesperados, procuravam o leite das mães que muitas vezes não o tinham para dar, porque elas próprias viviam na secura de uma vida de dificuldades … as mães eram heroínas e nas noites mal dormidas quase não mexiam as pálpebras, mas cantavam toadas de adormecer, ladainhas de fadas e de santos. “Oh ró, ró,” ronronava a mãe. E os olhos cansados cerravam-se.

Ao fundo das cozinhas escuras, pintadas de fuligem, os grilos acolhiam-se no seu canto embalador, doce era o seu trinado, arrastando para um sono rápido. Aquela manhã distante estava fria. Os últimos figos intumesciam nas figueiras, as medas secavam ao sol. Recolhiam-se as carumas. Cheirava ainda a mosto, a celeiro e a lenha. As videiras enviuvavam com a morte das folhas.

Continuava a chover. Uma chuva cadenciada, quase musical ajudada pelo toque de um bombardino e do rufar esgalhado de um músico de caixa.

Teimosa era a chuva, agora tocada pelo vento. As árvores despojadas do fruto não podiam com o peso da humidade. Ao longe, as nuvens negras do Marão vinham ameaçadoras sobre Mateus e num arranco de trovões ouviam-se gritos de crianças a correrem para casa, seguindo-se vozes estilhaçadas de toda a bicharada da aldeia.

Os cavalos do Zé “cigano” ficaram amedrontados, sobretudo quando os raios caíram perto dos tanques, fazendo faísca no para-raios da cabine. Perante tamanha tormenta, uma mulher gritava esbaforida: “Magnífica a minha alma…”vezes sem conta a pobre criatura expeliu aquela expressão.

Os sinos voltavam a tocar, lembrando uma vez mais que alguém tinha morrido: “Também tá a chegar a minha hora”, dizia uma anciã vinda do povo… “com a minha tuberculose não irei longe”.

“Deixa-te de lamúrias, tu tens de criar ainda os teus netinhos que precisam bem de ti. Eu sei que a tua filha morreu cedo devido a essa malvada doença, mas Deus há de dar-te forças Rosalina”. “Ó ti Maria deixe-se disso, estou preparada para tudo. A minha filha… ai a minha filha, rezo por ela todos os dias. De tão magra mais parecia um passarinho sereno e santo, uma alma que soube sofrer com resignação a doença maldita.”

A trovoada dissipou-se mas outras virão. Nesse outono distante várias vidas se despediram levadas pelas doenças que atingiram os mais pobres e vulneráveis. Mas tudo se renova e a aldeia voltou a ganhar o bulício próprio de um dia de primavera.

Os olhares espiritualizaram-se porque a vida é a eterna luz da esperança que nunca morrerá. A vida, são pingos de emoções que ora nos afagam, ora nos matam.

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