Sábado, 21 de Maio de 2022
António Martinho
VISTO DO MARÃO Ex-Governador Civil, Ex-Deputado, Presidente da Assembleia da Freguesia de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

A era do nós ou do eu?

Quando há dias vi a televisão noticiar que uma investigadora da Universidade do Algarve fora contemplada com uma prestigiada bolsa do Conselho Europeu de Investigação, fiquei curioso em saber um pouco mais do objeto da investigação.

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Dias antes, iniciara a leitura de “A Era do Nós – Propostas para uma Democracia do Bem Comum” onde encontrei uma interessante reflexão sobre a evolução da espécie humana, questionando o facto de o “Homo sapiens”, apesar de ter uma massa encefálica menor que a do “Homo neanderthalensis” ter sido o que sobreviveu e pode, agora, contar a história! É deveras importante que se possa continuar a estudar esta evolução e aprofundar o conhecimento sobre os nossos antepassados, assim como sobre os nossos “primos”. O objeto da investigação da Doutora Vera Aldeias “foca-se no período de transição de Neandertais para os Sapiens – um momento fulcral na nossa evolução e que pode ajudar-nos a explicar porque é que a nossa espécie é hoje a única a habitar o planeta”.

O autor de “A Era do Nós” analisa vários pontos de vista, desde logo, o “darwinismo” e realça que “o verdadeiro superpoder da espécie humana decorre da nossa capacidade de nos relacionarmos com os outros, de fazer amigos, de sermos capazes de aprender a viver em sociedade” e cita o cientista Brian Hare que considera que a evolução da Humanidade se resume à «Sobrevivência dos mais amigáveis”, título de uma das suas obras. O homem é um ser gregário. Como teorizou Aristóteles, ”é um ser político por natureza”, vive na cidade e em comunidade. Essa realidade envolve-o e responsabiliza-o na resolução dos problemas de todos, da sua “polis”. A vida em grupo, em comunidade, é fundamental para a sobrevivência.

As três últimas décadas do século passado distinguiram-se pela valorização da componente individual do ser humano. Os mais capazes, os mais competentes, os que se distinguiam teriam o direito a sobrevalorizar-se relativamente aos outros. São anos em que o “eu” se sobrepõe ao “nós”. É o tempo da ganância, dos yuppies, da reivindicação da liberdade individual, da independência e em que proliferaram as teorias e práticas do liberalismo económico.

Em Portugal, estamos num momento em que a consciência desta realidade assume clara relevância. Somos convidados a participar nas decisões que dizem respeito a todos, quer enquanto indivíduo, quer enquanto comunidade. Daí que o “eu” faça bem em pensar no “nós”, contribuindo, assim, para o bem comum.

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