Quinta-feira, 29 de Julho de 2021
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

A pandemia da inocuidade

O futebol está de volta. Dá-se conta pela invasão no espaço mediático, ao serviço do que vende de acordo com o algoritmo das audiências que rendem publicidade, e esta  dinheiro. O futebol além da utilidade dos empregos, alguns bem remunerados e do estímulo à economia deixou-se resvalar para a inocuidade. A falta de transparência, a […]

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O futebol está de volta. Dá-se conta pela invasão no espaço mediático, ao serviço do que vende de acordo com o algoritmo das audiências que rendem publicidade, e esta  dinheiro.

O futebol além da utilidade dos empregos, alguns bem remunerados e do estímulo à economia deixou-se resvalar para a inocuidade.

A falta de transparência, a suspeição dos negócios, das arbitragens, dos dirigentes, das entidades representativas e, mais recentemente, das apostas desportivas feriu gravemente o desporto de que quase todos gostamos. A iniquidade dos clubes barrigas de aluguer, dependentes de outros, também não acrescenta e vai maculando a atividade.

É preciso vender para comprar de seguida, para que as comissões, por vezes obscenas, pinguem em cascata sem vergonha e ética. É preciso atrair capitais dos países árabes, da China e não sei de onde mais para que o dinheiro entre nos circuitos legais.

Acrescem os plumitivos do futebolês que irrompem pelo espaço mediático contaminando o ambiente de paz que deveria reinar à volta das partidas de futebol. Também eles remunerados, servem-se de uma argumentação repetitiva, sem nexo, supondo-se sempre com razão, incendiando os amantes do futebol, acabando por perturbá-los em vez de promoverem a ética e a verdade desportivas.

O desporto não pode ser o espaço onde temos sempre razão, onde o que importa é ganhar nem que seja à dentada, à canelada,  recorrendo à manha, à simulação soez para enganar o adversário.

Não se entende, como pessoas que assumem os valores da ética, da integridade, da honestidade nas suas vidas se deixam contaminar, se transfiguram aceitando que se recorra a todos os expedientes para que o seu clube vença.

Não é aceitável que uma partida de futebol condicione a agenda cultural porque a bola  vence sempre. Pobre de quem agendar um acontecimento cultural, mesmo relevante, para a mesma hora de uma partida de futebol tida como importante.

De tanto ferir a cultura, temo que um dia, os mais sensatos e esclarecidos sintam náusea perante um jogo de futebol por serem os primeiros a perceber a podridão que o envolve.

O que hoje se vive à volta do fenómeno do desporto profissional em nada difere das corridas de quadrigas no circo romano, com milhares de apostadores nas bancadas. Hoje aposta-se nos jogadores, os romanos apostavam no auriga e nos cavalos. 

No circo romano valia tudo: incluindo destruir as rodas do carro do adversário; no futebol para lá vamos caminhando.

Uma sociedade que se reclama madura, com cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres não pode viver culturalmente condicionada e refém de um desporto que se converteu na rábula da tragédia que se anuncia.

Se soubéssemos toda a verdade dos bastidores do futebol, muitos não voltaríamos a entrar num estádio.

Do mesmo modo que o circo romano perdeu relevância com a queda do Império, talvez esteja reservado idêntico destino ao futebol se não mudar de vida.

A pandemia da Covid 19 vai passar, a do futebol tenho dúvidas.

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