Dali partem todos os problemas psicológicos, psiquiátricos e afetivos, que nos perturbam para o resto da vida. Abaixo a família! Alguém dizia que não podemos tocar numa gota de álcool. Somos candidatos a vários tipos de cancro. Abaixo as adegas, cortem-se as vinhas, arrasem-se as cervejeiras, reduzam-se a cinza as destilarias e alambiques! Alguém dizia que a fonte de todos os problemas da humanidade é a religião. As armas nucleares, os mísseis, os tanques de guerra, a droga, a exploração humana, o tráfico humano, entre outros, isso não tem mal, o mal chama-se religião. Deitem-se as Igrejas, as sinagogas e as mesquitas abaixo, queimem-se os livros sagrados, esses manuais de malvadez e violência, calem-se os órgãos de tubos! Esperem por outros radicalismos, porque anda por aí uma fúria radical à solta.
Quanto à religião, tem-se difundido muito a tese de que as religiões são as grandes causadoras de muitas guerras, divisões, conflitos e tensões sociais, além de serem um grande obstáculo aos progressos humanos e sociais que a humanidade tem de conquistar (como se esquece facilmente o grande contributo que as religiões deram no progresso da humanidade!). É uma tese simplista. Os ideólogos do ateísmo empedernido e militante aproveitaram os atentados terroristas de supostos fanáticos religiosos para poderem semear propaganda contra a religião em geral. Logo a seguir ao ataque das torres gémeas do World Trade Center em Nova York, Richard Dawkins, um dos maiores defensores e propagadores do ateísmo a nível mundial, apressou-se a afirmar que semelhante ataque nunca teria ocorrido se não existisse a fé religiosa numa vida após a morte.
De modo muito certeiro, o arcebispo de Cantuária respondeu-lhe que não se teria chegado a tão cruel atentado, se não houvesse aviões. A religião e a técnica podem ser utilizadas para o bem e para o mal, e o mau uso de uma ou de outra não é um argumento contra a religião ou contra a técnica, mas constitui uma razão justa para se estudarem cuidadosamente os dois fenómenos, e nos tornarmos conscientes dos riscos que lhes estão ligados, se pessoas irresponsáveis, mal-informadas ou perversas deles se apoderarem. A religião é boa e fundamental para o ser humano, mas mal-usada e distorcida, instrumentalizada para causas e fins que não lhe pertencem, torna-se fonte de muitos equívocos, mas a culpa não é da religião.





