Domingo, 18 de Janeiro de 2026
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Ernesto Areias
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

As máscaras

Em tempo de quaresma e quarentena, sinto a humanidade dotada de várias máscaras que ocultam o medo e o egoísmo. A dicotomia desta pandemia assenta em visões opostas e dilemáticas do mundo. Para uns o seu lucro é mais importante do que a vida do próximo. Por isso, não os comovem os idosos, os mais […]

Em tempo de quaresma e quarentena, sinto a humanidade dotada de várias máscaras que ocultam o medo e o egoísmo.

A dicotomia desta pandemia assenta em visões opostas e dilemáticas do mundo. Para uns o seu lucro é mais importante do que a vida do próximo. Por isso, não os comovem os idosos, os mais vulneráveis e os que são um peso social e económico.

Para outros, a vida vale mais do que economia e o lucro. Vivemos nesta antítese há demasiado tempo.

Temo que nada se aprenda com esta Pandemia. A seguir à I Guerra sobreveio a pneumónica. Como compensação, seguiram-se os Années folles, o retorno do luxo, que ficara suspenso desde a Belle Époque, o charteston, dança da moda e o glamour dos salões; o neo-realismo, o dadaísmo e o surrealismo.

Como nada se aprendeu, com o sistema de forças inquinado pelo tratado de Versalhes, que impôs medidas draconianas à Alemanha, o sistema, teve como epílogo a quinta-feira negra com a queda estrondosa da bolsa de Nova Iorque e a crise económica de 1929. No plano político, os sistemas desaguaram no nazi-fascismo que levou à guerra civil espanhola, à II grande guerra e à guerra fria.

No tempo dos algoritmos, do primado da economia na regulação das relações entre as sociedades, a máscara da ganância dos mercados financeiros sem regras e vergonha caiu de novo; caiu a mascara da relação de forças entre potências económicas cujo primeiro objetivo é o lucro, o dinheiro, o bem-estar, o fausto obsceno, o poder.

Caiu ainda a máscara da outra Pandemia: a da desigualdade, da miséria e da exploração; caiu a máscara do supremacismo bacoco, ridículo dos eleitos que se julgam donos da humanidade. Caiu a máscara dos sistemas de educação que promovem uma espécie de incompetência escolarizada de manipuláveis desprovidos de sentido crítico.

Bertrand Russell apontava como causas da infelicidade que condicionam o quotidiano da vivência humana a competição no sentido de que tudo quanto possamos ter será sempre pouco, a inveja e a mania da perseguição.

Caiu a máscara do confronto entre a verdade e a mentira, a manipulação e a dominância entre povos; caiu a máscara da humanidade que relativizou a vida humana.

Parece ter caído também a máscara de Deus reduzido, no silêncio dos templos, a uma metáfora, a um ente morto. Será que Nietzsche tinha razão!?

Enquanto a tragédia se dissolve no palco do mundo continuaremos de olhos vendados entre veredas sem as virtudes de Tirésias.

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