Quinta-feira, 29 de Julho de 2021
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

Cinquentenário da morte de Salazar (I)

A sociedade portuguesa continua com dificuldades em fazer uma abordagem histórica serena sobre Salazar, o Império Colonial português e as três frentes de guerra em África.

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Ao falar de Salazar não falta quem o diabolize e culpe por todos os males, esquecendo que deixou o poder em setembro de 1968, não faltando também quem lhe atribua virtudes que nunca teve.

Em termos históricos não podemos esquecer que Salazar nasceu em 1889, no terceiro quartel do século XIX, que fez formação académica no seminário, que cursou Direito e se doutorou em Finanças Públicas. Não digam que Salazar era um grande economista porque era doutorado em Finanças não havendo no seu tempo o curso de economia em Portugal.

A sua formação decorreu na balbúrdia da I Republica jacobina e anticlerical com perseguições, hoje impensáveis à Igreja e aos clérigos, que decorreu em pleno período do integralismo lusitano e na confluência de movimentos culturais como a Seara Nova e o Orfeu, com os movimentos artísticos que marcaram o século XX como o Dadaísmo, Impressionismo e Expressionismo e na literatura a corrente Neorrealista que teve entre nós grande pujança com autores como Alves Redol e Manuel da Fonseca.

O pensamento de Salazar defendia um Estado forte com proteção aos setores básicos da economia, paradigma hoje mais caro à esquerda do que à direita liberal, a política colonial que considerava intocáveis os territórios ultramarinos e a manutenção de um regime corporativista, autocrático, sujeito a referendo popular mas não a escolhas que fossem além da União Nacional.

Para manter esta sua posição rodeou-se de uma guarda pretoriana formada pela PIDE, pela Legião Portuguesa, a GNR que era a guarda da res pública, muito ligada ao regime, sem falar das outras forças de segurança que dividiu quanto pôde que foram aparecendo e desaparecendo ao sabor das conveniências do regime e do equilíbrio de forças que sempre quis preservar.

É minha convicção que Salazar desconfiava de toda a gente. Admito que foram apenas pessoas da sua confiança Maria de Jesus, sua eterna governanta desde Coimbra, os diretores da PIDE, Silva Pais e Barbieri Cardoso, o presidente Américo Tomás, um militar boçal que lia com tibieza os discursos que lhe escreviam.  Confiava também em Bissaya Barreto, um homem bom de Coimbra a quem sempre respeitou.

Poucos saberão que Salazar foi frade tendo tomado ordens menores. Tenho a convição de que terá feito votos de pobreza, daí a circunstância de não dar valor ao dinheiro nem de ter acumulado património pessoal. Talvez, por isso, tivesse optado por fazer uma vida frugal, austera, de quase clausura, indiferente ao mundo, à pobreza que afetava os portugueses e aos grandes movimentos que, sobretudo no pós-guerra trouxeram prosperidade à Europa em que nunca nos incluiu.

Não tenho dúvidas que sempre foi refém da burguesia industrial emergente e dos grandes terra-tenentes. 

Estamos a falar de um homem muito complexo cuja caracterização está longe de caber nos lugares comuns que ouvimos debitar pelos que o elogiam e por muitos dos seus detratores. Voltaremos ao tema.

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