Quarta-feira, 22 de Julho de 2026
Ernesto Areias
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

Coesão ou desastre territorial – (II) Agricultura intensiva

O Alqueva e outros sistemas de regadio trouxeram consigo a agricultura intensiva que ocupa grandes extensões de terra, sobretudo no Ribatejo e Alentejo.

Se é verdade que a agricultura deve ser dos pilares mais robustos da economia, por razões de suficiência alimentar, coesão territorial, ordenamento fundiário e das florestas, não o é menos que o consumo extremo de água, a aplicação permanente de pesticidas e o excesso de plantas comprometem o futuro da aptidão dos solos.

O manto da terra, que demorou séculos a ser criado, pode ser destruído em pouco tempo por exaustão dos solos que não têm mais para dar ao fim de alguns anos. Ou seja, o manto da terra e o aluvião constituído pela natureza e ação do homem ao longo de séculos, pode ser destruído pela ganância dos super agricultores/predadores do nosso tempo.
E a agricultura, que deveria ser fator de coesão territorial fixando as populações às suas origens, converteu-se em fonte de atracão de emigrantes explorados, privados de cidadania, sem apoios sociais e descontos para a S.S., vítimas da precariedade mais criminosa; afastados da vida em comunidade e dos olhares de quem tem ainda um pouco de humanidade são menos incómodos.

Urge uma intervenção reguladora do governo relativamente a este tipo de agricultura, que se façam estudos sérios de impacto ambiental, controlo de pesticidas e grau de contaminação dos solos, dos cursos e reservas de água.

Por seu turno, a C.E deverá repensar se esta agricultura deverá continuar a ser subsidiada por fazer parte de um nicho não ecológico de uso dos solos que deveria preservar por pertencerem também às gerações futuras.; os produtos são de menor qualidade e sabor porque apresentam índices de pesticidas que são um atentado à saúde pública.

-PUB-

Muitos dos produtos que hoje se vendem, sobretudo os maiores e mais luzidios, são, em regra, os que apresentam maiores cargas de adubos foliares e de químicos; esta tragédia pode um dia pedir contas à nossa inércia.

Entretidos com as emissões zero carbono e o aquecimento global, creio que os ambientalistas deverão chamar a atenção de forma insistente para este tipo de agricultura.
Se num futuro próximo perdermos, em poucos anos, centenas de milhares de hectares de terra arável por envenenamento não haverá outros que os substituam.

Olhem para a situação grave dos trabalhadores escravizados nessas extensões de terra, onde se cometem graves crimes contra o ambiente e a sociedade, explorando os mais frágeis, tudo em nome da ganância e do lucro subsidiado com os nossos impostos.
Parem de subsidiar a agricultura intensiva, imponham regras claras de exploração do solo pois corremos o risco de pertencer à geração mais destruidora de sempre.

Esta agricultura acabará por contaminar solos e cursos de água e por distorcer as regras de concorrência com os pequenos e médios agricultores.

A este drama, associa-se com idêntica ênfase a agricultura das estufas que ocupam grandes extensões, sobretudo em Espanha, onde os índices de envenenamento e poluição dos solos é ainda mais grave.

Estas formas de exploração da terra em vez de serem fator de coesão territorial poderão ser a destruição definitiva do interior.

ARTIGOS do mesmo autor

Maio pardo

Dia Mundial do Livro

Cais das lágrimas

Abrilada, tentativa de golpe palaciano

45 anos da Constituição da República

Deus e a fé não se googlam

NOTÍCIAS QUE PODEM SER DO SEU INTERESSE

ARTIGOS DE OPINIÃO + LIDOS

Notícias Mais lidas