A viagem do Papa Francisco ao Iraque traz-nos à lembrança tempos em que estudávamos o Próximo Oriente, como “Crescente Fértil”, ou como berço da religião cristã, aliás e com mais precisão, das religiões monoteístas – judaísmo, cristianismo e islamismo, por se considerar que ali terá nascido Abraão. Era a Mesopotâmia, região próspera e rica, onde surgiram as primeiras cidades-estado e onde terá sido inventada a escrita pictográfica. Naturalmente disputada. Nos tempos mais remotos pela sua fertilidade; nos mais recentes, decerto, pelo ouro negro. Daí, os conflitos que a História registou. Que os últimos anos nos mostraram de uma forma tão sangrenta. Disputas territoriais, nuns casos; interesses de domínio e influência, noutros; conflitos religiosos, ainda noutros. Um facto – uma região flagelada por conflitos quase permanentes.
Pois, o Papa da encíclica “Todos irmãos”, mesmo em tempos difíceis como os que vivemos com a pandemia da COVID-19, quis sair da comodidade das salas do Vaticano e viajou até ao Iraque com “uma mensagem de paz e de amor entre todas as religiões”, como referiu ao New York Times, citado pelo Público, um cristão de Nassíria, que pôde ser recebido por Francisco. Ter-se-á lembrado, também ele, que a destruição que encontrou por todo o lado, nomeadamente, na cidade de Mossul, cujas imagens as televisões nos trouxeram, são resultado de uma guerra que podia muito bem ter sido evitada. Interesses espúrios levaram ao seu eclodir. E a guerra nunca resolve nada. No caso, trouxe outras guerras que o fundamentalismo islâmico agudizou com perseguições generalizadas e que os cristãos daquele país sofreram de forma atroz, na sequência de vários anos de guerra e do terror do Daesh. Em Ur, berço da civilização suméria e onde ainda se pode visitar um zigurate, construção arquitetónica que combina um templo com uma torre, perante representantes do islão e de quatro religiões minoritárias do Iraque – este país, como ouvi numa rádio de um Freira portuguesa, é um país de minorias – o Papa Francisco classificou o extremismo religioso como “uma traição à religião”.
Também por isso foi bom ler que o Ayatholla Ali al-Sistani e o Papa Francisco, no encontro, se apresentaram aos seus “seguidores como defensores e porta-vozes dos oprimidos e dos mais necessitados”. Diálogo inter-religioso para construir a paz e defender os mais indefesos, é uma bela lição desta visita.





