Terça-feira, 21 de Abril de 2026
João Ferreira
João Ferreira
Investigador, Professor do Ensino Superior

Da biblioteca de Alexandria aos computadores quânticos

Mede 4 cm², mas demora apenas cinco minutos a concluir tarefas que os mais rápidos computadores convencionais do mundo levariam 10.000.000.000.000.000.000.000.000 anos a realizar. Se não sabe o nome desse numero é 10 septiliões, mais anos que a idade do nosso universo.

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Pese embora o novo chip quântico ainda não faça nada de útil, está já a acelerar a intensa corrida entre as superpotências mundiais pelo seu desenvolvimento. Não para realizar as coisas que os computadores convencionais já realizam, mas para fazer outras coisas que seriam mesmo muito morosas, na prática impossíveis, ou que ainda não imaginamos que possamos fazer. Do desenvolvimento de novos fármacos em meses ou anos em vez de décadas, à analise de imagens de ressonância magnética até ao ínfimo detalhe atómico ou até à teleportação de informação, estes são apenas exemplos do potencial desta tecnologia.

A computação quântica, aproveita dois fenómenos do mundo quântico (o universo das dimensões subatómicas): a superposição, que permite que partículas subatómicas estejam em vários estados e locais ao mesmo tempo, e o entrelaçamento quântico, no qual duas partículas subatómicas podem influenciar-se mutuamente a grandes distâncias de forma instantânea, sem transferência de informação. A combinação destes dois fenómenos permite a aceleração da computação de forma exponencial, começando pelo facto de que agora os bits de informação já não são apenas 1 e 0, mas sim 1, 0 e 1 e 0 ao mesmo tempo (na prática 10 e 01). Está a compreender? Acredito que não, a não ser que seja um físico. E na verdade não é credível que a generalidade das pessoas consiga compreender.

Na biblioteca de Alexandria, durante a antiguidade clássica, os leitores amiúde escreviam pequenas notas e referências nas margens dos papiros para ajudar na interpretação de determinada passagem. Já naquela altura, provavelmente na primeira biblioteca a sério da humanidade, os seus estudiosos reconheciam as limitações das suas capacidades intelectuais e tentavam ajudar-se uns aos outros com essas anotações. Sem querer trivializar, e embora saibamos que ninguém consegue saber tudo, continua a ser paradoxal como, coletivamente, a humanidade consegue fazer adições de conhecimento e conquistas de engenharia do nível dos chips quânticos que, contudo, a nível individual está a milhas de efetivamente compreender. E se isso nunca nos impediu de aproveitar uma nova descoberta ou tecnologia em nosso proveito, amiúde deixou também, por assim dizer, um “sabor amargo”. Por isso é normal que os sentimentos de entusiasmo e excitação de uns sejam recebidos com receio e apreensão por outros. E quanto mais complexa e rebuscada for a descoberta, maior tenderá a ser a rejeição. À medida que a adição de novo conhecimento acelera e que criamos ferramentas para o fazer a velocidades estonteantes, temos provavelmente de arranjar formas de criar confiança nestas descobertas e de demonstrar às pessoas que estas novas tecnologias, se devidamente usadas, as podem realmente ajudar, de maneiras que apenas ousamos imaginar.
Tenham um Feliz Natal e umas excelentes entradas!

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