Sábado, 13 de Agosto de 2022
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Na fé está a luz da esperança

As pandemias nas suas variantes de vírus, ao longo dos tempos, têm dizimado mais gente do que as mortes causadas pelo terror de todas as guerras.

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As misérias da pobreza e os excessos das extravagâncias humanas contribuem para que o planeta se exponha e comprometa a sobrevivência da espécie humana. Há histórias de vírus que são narrativas de uma fé inabalável a um santo protetor.

Precisamos de acontecimentos que transfigurem os momentos de desânimo em incitamentos para voltarmos a caminhar na alegria serena e triunfante da vida.Por volta de 1877, na freguesia de Mateus, grassou nos milharais uma epidemia provocada por um verme que os destruía por completo.

O povo implorou a frei Vicente que rogasse a Deus, invocando a Sua misericórdia.
E o frei orou, levantando a Cruz de Cristo, lançando com as duas mãos a bênção em diferentes direções. A Voz era profunda, profética. Os olhares contemplativos abarcavam todo o espaço circundante. As orações foram escutadas e o verme desapareceu, cessando o mal nesse ano e nos anos seguintes.

Ali mesmo o frei foi venerado pela população que o olhava na grandeza da sua alma e na força da sua fé.

Nesse tempo, Mateus era um lugar com casebres de lascas e granito, no entanto a crença de cada habitante era modelada de uma alma poética enobrecida pela música e porque à volta da aldeia havia campos de vinha e searas, terras despidas, capelinhas perdidas e luares aconchegantes.

Ali se descobria a grandeza do planeta porque se sentia de perto o cheiro da terra, o infinito do céu e o povo se plasmava com os sinos a anunciarem a morte de alguém ou o chamamento para a missa ou batizado ou mesmo para enterro de bebé.

E romperam danças com as raparigas a deixarem-se tocar ao som de uma valsa por músicos da banda, fingindo os rapazes tropeçar para nelas caírem de corpo inteiro.
Os mais velhos diziam que nunca viram tanta alegria … o baile prolongou-se até que os galos anunciassem o romper da aurora… algumas moças arfavam na respiração do cansaço e da felicidade quem não tinha bailador saía do largo à espera de um afago protetor da mãe que andava sempre por perto na ronda subtil da vigilância.

Depois do baile, tudo ficou silenciado e a Natureza parecia imbuída de uma luz redentora. Os primeiros alvores surgiram num céu que se apresentava limpo. Os músicos recolheram as suas casas. Com a força do toque, alguns instrumentos ficaram maltratados… O bombo foi o mais sacrificado, ficando a pele estilhaçada pela pancadaria arrebatada do tocador. As palhetas dos clarinetes ficaram desfeitas pela força da pressão dos lábios e da vibração da língua. A alegria transbordante a isso contribuiu… E a fé ofereceu a chama que alimentou a vida interior de cada um.

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