Mário Lisboa
Mário Lisboa
Tenente-Coronel da Força Aérea. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

No meu tempo era assim

DE QUANDO EM VEZ...

Levantava-se da cama à 7h30 e, na minha casa, situada na Rua dos Vasos, que começava no Largo do Cano, talvez porque nas sacadas havia esses recipientes com flores até ao fim da rua, o cheiro das plantas era a alegria das senhoras que as alimentavam não só com água mas também com os seus sorrisos abertos e felizes. Eram assim os residentes na Rua dos Vasos, que continuaram ao longo dos anos a manter o mesmo estatuto de vivência.

Voltando às 7h45, do dia 1 de outubro de 1950, a minha mãe, a Tia Casimira, como era carinhosamente conhecida em Vila Real, obrigava-me a comer um caldo de cebola e, só depois é que tomava o café com leite, antes de ir para as aulas no Liceu Camilo Castelo Branco. Estas aulas decorriam durante a parte da manhã até às 13h00.

O meu itinerário na ida para o Liceu passava pela Rua Direita, já com muito movimento, pois, para além das maravilhosas casas comerciais, existiam os Bombeiros da Cruz Branca e os Correios. Ainda neste contexto, o Liceu era liderado pelo Reitor, Dr. Martinho Vaz Pires, que foi talvez o melhor professor do ensino secundário que alguma vez tive.

Foi meu professor de alemão no 6º e 7º ano e ensinava como só ele sabia fazer. O Dr. Martinho Vaz tinha tanto de bom como de político salazarista, que até o próprio Salazar lhe ficava a quilómetros de distância. Todo o aluno que usasse capa e bactrina não entrava no Liceu, isto é verdade. E no fim do ano dava informações por vezes negativas aos jovens que faziam a récita no teatro 1º de Dezembro na Avenida e ainda iam ao baile de fim de curso, que tinha lugar no Club de Vila Real.

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Eu fui uma vítima do Dr. Martinho Vaz Pires, pois na média do 7ºano precisava de 14 valores a inglês e alemão. Como gostei sempre mais de alemão deu-me 15 valores nesta disciplina e mesmo eu tendo feito um exame de inglês para um nível superior a 14 valores, deu-me apenas 13. Tive de ir fazer exame de admissão a Coimbra, à Faculdade de Letras da Universidade, em julho de 1956. Felizmente dispensei da oral, mas naquele tempo a minha estadia em Coimbra custou-me 20 contos. Vinte mil escudos, com o exame na Universidade incluído, era uma pequena fortuna.

E era assim, pois as regras do jogo estavam presentes. Agora ninguém sabe o que vai acontecer no dia de amanhã aos mais variados níveis. Penso na ajuda do Senhor do Calvário e que seja favorável aos vila-realenses que tanto o veneram e respeitam. 

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