Quarta-feira, 24 de Abril de 2024
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Eduardo Varandas
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O Carnaval nos meus tempos de juventude

Nunca fui um grande entusiasta da época carnavalesca, influenciado talvez por aquele velho hábito existente nalgumas aldeias transmontano-durienses de os rapazes andarem à procura das raparigas casadoiras para as enfarinharem, quando as apanhavam à socapa, obrigando-as a cuidados redobrados durante o Carnaval, o que as levava a evitar saírem de casa para se protegerem dessas investidas masculinas.

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Por mais cuidado que tivessem em se protegerem dessas arremetidas inesperadas, quase sempre uma ou outra era vítima das artimanhas engendradas pelos seus “algozes”. Trepando até às sacadas das casas, para as apanhar desprevenidas, ou encontrando-as, eventualmente, debruçadas nos peitoris das janelas, havia sempre uma ou outra atingida por um pacote de farinha arremessado sobre as suas cabeças deixando-as com os cabelos esbranquiçados e os seus autores vangloriados pelo feito conseguido. Confesso que nunca achei grande piada a esse passatempo de mau gosto, enraizado na mente da população masculina daqueles tempos. Nunca consegui descortinar a origem de tão malfadada tradição.

Numa perspetiva mais aprazível, sob o ponto de vista lúdico, havia, aqui e ali, pequenos desfiles de elementos da população mascarados e vestidos com roupa trapalhona, situação que provocava nos transeuntes um misto de surpresa e expectativa quanto à sua verdadeira identidade, dando azo a várias especulações sobre quem seria cada uma dessas figuras carnavalescas. Esta particularidade trazia às aldeias um certo ar de alegria e animação, permitindo às pessoas esquecer por momentos as agruras do dia a dia e desfrutar alguns instantes de descontração saudável e animada.

O momento alto desses festejos carnavalescos acontecia, porém, na terça-feira, ao fim do dia, com a cerimónia do enterro. O cortejo fúnebre era incorporado por dezenas de figurantes que depois de percorrer as principais ruas da aldeia terminava num local previamente selecionado para aí se proceder às cerimonias fúnebres e assim terminar, simbolicamente, o Entrudo.

Estes rituais caíram praticamente em desuso, fruto da desertificação do mundo rural e da apetência por outras atividades de lazer, próprias da sociedade em transformação acelerada em que vivemos.

Se bem que o velho hábito referido no início deste texto não tenha deixado saudades, pelo seu anacronismo e pela forma violenta que encerrava em si mesmo, não há dúvida que o desfile de figuras mascaradas e o simbolismo do enterro constituíam momentos marcantes do Carnaval de outras eras em certas zonas do chamado Portugal profundo.

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