Os incêndios a que todos os anos assistimos assim o confirmam e vão continuar a confirmar, com grande colaboração também das alterações climáticas. Qual é o plano de desenvolvimento que temos para o interior? Que ideia temos para o interior? Vamos persistir nesta senda nefasta sem futuro?
Mesmo a crise da habitação de que tanto se fala, também tem a sua origem no interior do país. Escrevia aqui há uns tempos Miguel Sousa Tavares, e com toda a razão, no Expresso: “Não há um problema de falta de casas em Portugal: há, sim, em Lisboa e no Porto e suas periferias. E esse problema chama-se desertificação e abandono do interior e começou a sério há 30 anos”.
Nas últimas décadas, se o país tivesse apostado num plano de desenvolvimento com pés e cabeça, se não se tivesse deitado o interior às urtigas e ao abandono, se se tivesse feito tudo para não se concentrar 75% da população no litoral e nos grandes centros e apenas 25% da população na restante parte do território nacional, sabendo-se perfeitamente que nenhum país pode ser equilibrado assim e se tornar desenvolvido, se não andássemos o tempo todo a falar de coesão territorial e depois a fazer o seu contrário, se as últimas governações se tivessem preocupado menos em apetrechar o litoral com todos os meios e requisitos para o desenvolvimento e a depauperar o interior, sabendo ver para além da próxima eleição ou da próxima greve, ou onde se têm os apoios partidários, se não se tivesse iniciado o nefasto processo de “fechar hospitais e centros de saúde na província, tribunais, correios, escolas, tudo o que representasse a presença do Estado junto dos portugueses”, como afirma Miguel Sousa Tavares, se não se tivesse olhado para a agricultura e a pecuária como uma “artes menores”, mas atividades fundamentais para a ocupação, a sustentação, a autossuficiência e o crescimento do país, talvez hoje este pequeno país à beira mar concentrado e desenvolvido não estaria a passar por esta crise na habitação. Porque não há falta de espaço e de casas no país, mas há falta de casas onde erradamente está concentrada muita população, e, como estamos, não será fácil resolver o problema. Só com outro modelo de desenvolvimento e de organização do país poderemos dar a volta à situação. O modelo de desenvolvimento que aqui nos trouxe está completamente errado.



