Sábado, 13 de Agosto de 2022
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Os herdeiros

Em Mateus vivia uma velhinha já gasta por três casamentos. Mas tinha dinheiro e tinha herdeiros…

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Em Mateus vivia uma velhinha já gasta por três casamentos. Mas tinha dinheiro e tinha herdeiros…

Uma velhinha com herdeiros tem sempre discussão. Velhinhas sem heranças são como farrapos andrajosos, desprezíveis.

Velhinha com fortuna é alguém de verdade, a insistir em viver, a alimentar a sua bronquite, a tossicar o catarro crónico mas a acordar viva ao cantar do galo; velhinha empenada e a definhar todos os dias, quer guardar para amanhã o testamento que deveria fazer hoje… e a família a fingir que tem pena dela… e os herdeiros a sofrerem e a encherem-lhe o papo como galinha que engorda para se matar depois… e metem-lhe o bandulho de comida na esperança de uma qualquer congestão… abrem-lhe as portas e janelas na ilusão de que a velha possa apanhar uma pneumonia que a leve de vez…

Dão-lhe mimos com remédios falsificados, mas a velhinha em breve, se cura da pulmoeira e dos maus-olhados.

Não há nada a fazer…a velhinha habituou-se a ser como é: É um modo de vida que não quer abdicar. E porque tem o sono leve, parece estar viva 24 horas por dia. Esta velhinha é uma certeza, é um dogma, uma chatice para os herdeiros.

Choveram telefonemas dos herdeiros distantes a perguntarem como é que a ti Germana está… perguntam se ela ainda mexe… E ela mexe como sardinha saída do mar…

Todas as manhãs, bem cedo saía de casa, trocando as perninhas enviesadas… Ia à Venda comprar coisa pouca, sobretudo café, açúcar, broa, chá e manteiga… À tarde aproveitava a saída à rua para se juntar a outras velhinhas viúvas e todas juntas atacavam no chá das cinco e nas farpas afiadas da má-língua…

A triste realidade é que a ti Germana não colaborou na vontade dos herdeiros em morrer e indiferente foi dum egoísmo atroz…era, por isso, uma velhinha chata e com falta de humor…

Um dia um herdeiro de nome Estriga, aflito de dívidas, dentro do carro, colocava-se em posição estratégica para atropelar a velhinha quando esta saísse do Banco de Portugal.
Foi uma alegria quando o condutor a viu a coxear dos joanetes a caminho do largo… O neto tinha um ar de marialva, cabelo empestado de brilhantina…Decidido, avançou erguendo o focinho lustrado de creme Old Spice, tocou na buzina, fazendo gemer os pneus…a velhinha assustou-se e, mesmo a tempo, deu um salto, indo cair nas ventas do passeio… o carro disparou dali sem atingir o almejado objetivo…

Desesperado, o neto não ficou por aqui…Meses depois, ouvira dizer que a velhinha fora atacada por forte pneumonia… decidiu ir visitá-la… Confiante entrou na casa da avó…e ao vê-la pimpona balouçando-se na cadeira, o Estriga logo tremeu de raiva e num espirro feroz, saiu-lhe da boca a expressão envenenada: “maldita velha que não morre…”
Os herdeiros desesperavam martirizados do cansaço da espera.

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