Terça-feira, 28 de Setembro de 2021
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Os retornados e a descolonização

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Por essa razão, tive oportunidade de conviver com brancos e negros de todos os estratos sociais, o que me permitiu ter uma visão alargada sobre o «modus vivendi» da sociedade angolana. Visão essa nem sempre coincidente com a de muitos fazedores de opinião, quantas vezes distorcida da realidade, maniqueísta e tendenciosa.

Nunca perfilhei a ideia do Portugal uno e indivisível, do Minho a Timor, como era então defendida pelo Estado Novo, embora reconheça que esta conceção de unidade territorial não era exclusiva do antigo regime. Basta ler a História de Portugal para se concluir que tanto a monarquia, como o regime republicano partilharam ideias semelhantes quanto aos territórios de além-mar.

Vem isto a propósito de certas opiniões expendidas por cidadãos portugueses que viveram ou nasceram nos antigos territórios africanos sob administração portuguesa, os designados retornados (nome que pressupõe o retorno às origens, embora tal designação não se possa aplicar às gerações que aí nasceram e cresceram, e foram muitas), e que após a descolonização, regressaram à chamada metrópole, acompanhados pelas tais gerações nascidas em solo angolano. É estranho que enquanto aí permaneceram e viveram nunca se viu, da sua parte, qualquer crítica ou condenação à política seguida pelo Estado Novo, pelo contrário. No entanto, é frequente, nos tempos que correm, aparecerem, em vários órgãos de comunicação social, artigos de opinião, subscritos por alguns desses cidadãos, usando um tipo de linguagem e expressões inusitadas que não se coadunam com o seu passado e forma de estar durante o período colonial. Na maioria das vezes, ao lê-los, parece até que os seus autores provêm de alguma organização marxista-leninista, e não de alguém que emigrou para esses territórios à procura de novos horizontes, para melhoria das suas condições de vida. 

A hipocrisia e a incoerência subjacentes à maioria dessas opiniões levam-me a formular a seguinte pergunta: por que motivo, esses críticos tardios, não permaneceram nesses novos países ajudando-os, com o seu trabalho e saber acumulado, a evoluírem na senda do progresso e da estabilização democrática? Eu até compreendo que, perante o clima de terror que se instalou após a independência, tivessem que abandonar as terras, que também eram suas por adoção, ou onde foram nados e criados, mas entendo que deviam dirigir as suas críticas aos responsáveis pela tragédia em que se transformou a descolonização e não alinhar com alguns demagogos e refazedores da história.

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