Quinta-feira, 5 de Agosto de 2021
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

Pandemia e pandemónio

Desde a emergência da pandemia, que os tempos são de pandemónio, tal a desregulação que trouxe ao quotidiano das sociedades.

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De um lado, os assustados que não saem de casa com medo do vírus, por pertencerem a grupo de risco, do outro os descuidados que o desafiam como os corajosos que pegam um touro de caras e do outro, os mais sensatos e cautelosos, que se preocupam  na medida certa consigo e com o  próximo.

Num outro lado, acantona-se a imprensa ociosa, que não encontra outro tema de conversa que não seja a covid. Num ápice, os jornalistas converteram-se em epidemiologistas, infeciologistas e especialistas em estatística. E nós, cidadãos, ficamos a pensar que deixou de se morrer de outras doenças porque a covid monopoliza todas as causas de morte e todas as razões de vida.

Os cientistas são pressionados como nunca antes o foram, porque urge um milagre para salvar o trumpismo e dar algum sentido ao bolsonarismo, as novas epidemias do populismo de sarjeta com todas as receitas aptas a destruir o tecido social e a economia de um país.

É preciso salvar os investimentos megalómanos das multinacionais da farmácia, não venha algum medicamento que destrua o vírus e o negócio vá pela água abaixo.  Compram-se notícias, manipula-se a opinião e assustam-se os cidadãos. Monitorizam-se os números e todos os dias à hora de almoço lá vem a litania estatística das desgraças que aconteceram nas últimas 24 horas: morreram dois, ou dez, ou cinco, os infetados foram tantos, os recuperados um pouco menos ou um pouco mais e os internados são em número crescente ou decrescente.

E a nossa vida vai-se reduzindo ao enovelado de uma aritmética difusa, variável, sobressaltada, difundida pelo rosto patibular dos jornalistas de serviço que têm de espalhar o pânico para que não mudemos de canal, coice merecido que o  telecomando nos permite.

Rússia, Reino Unido, China, Alemanha, Estados Unidos, Brasil, Espanha e, talvez a Somália ou a Coreia do Norte querem vacinar-nos. Que amigos  eles são!

Voltou o discurso do anti-comunismo primário como se a antiga URSS ainda existisse e os países de Leste estivessem entrincheirados no pacto de Varsóvia. Não faltarão livros de receitas para comer crianças ao pequeno-almoço e formas de matar velhinhos para não lhes pagar as reformas.

Outros entretêm-se com posicionamentos negacionistas como se esta pandemia se resolvesse com teorias da conspiração e conversa fiada de intelectuais de café.

E lá vêm, com várias formulações, as teorias da conspiração: foram os chineses para dominarem o mundo, foram os americanos, porque o vírus saiu do penteado do Trump, outros dirão que estava escondido na sanfona daquele tipo que interpretou a Avé Maria de Schubert em nome das vítimas da covid, a soldo do capitão Jair.

Depois vem a festa do Avante: um favor do Costa aos comunistas; não, o Costa é um manhoso, quer é matá-los, infetando-os em massa.

Por cá, deixem-se de tretas, nos últimos 32 dias a taxa de letalidade baixou para 1.2, mais de 70 por cento em relação aos meses de março a junho. Façam as contas de modo a que a pandemia deixe de ser este pandemónio como se não houvesse amanhã.

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