Segunda-feira, 2 de Agosto de 2021
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

Salazar: a pobreza uniformizou o país. (IV)

Não pretendendo fazer a história de Salazar e do regime, valerá a pena a tentativa de abordagem de alguns aspetos do tempo em que governou o país

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Julgar um governante fora do tempo e do contexto histórico que condicionou as suas decisões e mentalidade é tarefa condenada ao fracasso.

No meu romance “Neste cais, para sempre” de que decorre uma caracterização que me parece justa e adequada do regime, a dada altura, uma das personagens principais, o neurologista Damião Afonso, voltando-se para um amigo de seminário, pároco numa aldeia de Barroso, comentou o seguinte:

Sem se deter…o médico acrescentou:

Para se defender de um povo pobre e bom como o nosso, Salazar fardou quase metade do país. Vê quanta gente anda fardada. Vai contando Monteiro: GNR, P.S.P. Guarda fiscal, Guarda fios, Guarda rios, Guarda florestal, Guarda prisional, Guarda marítima, Polícia de viação e trânsito, Exército, Marinha, Força aérea, Mocidade portuguesa, Legião portuguesa, Marinha mercante, cantoneiros, bombeiros, carteiros, guardas noturnos, cobradores, maquinistas dos caminhos de ferro, motoristas das carreiras, contínuos dos liceus, escolas e universidades. 

A esta realidade poderemos acrescentar os uniformes, vulgo batas, dos alunos dos liceus e escolas comerciais e industriais.

Não satisfeito com a extensa enumeração, Damião Afonso foragido de Caxias, umas das prisões do regime, acrescentou:

– Depois aparece a corja dos não fardados: pides, bufos, estes em número que ronda os duzentos mil, mangas-de-alpaca, alguns também bufos, dos situacionistas e dos clérigos, a maioria devido aos traumas da I República, cúmplices do regime.

Esta a realidade do país: todos muito uniformizados, a organização social estratificada e uma diferenciação económica e de famílias bem definida.

Esta forma de agir, quando no pós-guerra sopravam ventos de outro quadrante na Europa desenvolvida, foi afastando e ensimesmando o regime encaminhando o país para a situação de “orgulhosamente só”.

Ano após ano eram cada vez mais os países contra Portugal em cada nova assembleia geral das Nações Unidas, apesar da voz corajosa de Franco Nogueira, quando a brisa da História já não corria de feição. E assim, Portugal foi-se afastando e sendo afastado do panorama internacional, foi perdendo voz e influência, ao mesmo tempo que minguava o número de países com quem mantinha relações diplomáticas.

Com este procedimento não se aproveitaram as vantagens do plano Marshall, não se evitaram as três frentes de guerra no Ultramar, durante treze anos absolutamente perdidos e o país não seguiu o caminho do desenvolvimento. 

A situação geográfica periférica e a coexistência do franquismo em Espanha ajudaram a manter o isolamento do mundo. A esta realidade associaram-se os interesses que a guerra colonial espoletou, que condicionaram a política de Marcelo Caetano que teve sempre uma visão muito clara sobre o futuro das colónias.

Para mitigar a miséria esperavam-nos as Áfricas, os Brasis, as Américas e, mais tarde, os bidonville da periferia de Paris, onde os nossos emigrantes mostraram serem verdadeiros guerreiros.

No meio rural ficaram as crenças, os mitos, as procissões, a litania da pobreza, os xailes pretos e o azorrague da ignorância.

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