Quinta-feira, 5 de Agosto de 2021
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

Torga e o Negrilho

Torga mantinha com a terra Natal, São Martinho de Anta, um relacionamento de transcendência feito de sangue e memória. A mesma alquimia o ligava a Trás-os-Montes.

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Foi e será sempre a voz que retratou o voo sibilante de uma perdiz, o silêncio dos fraguedos ancestrais e dos pardieiros que foram berço e mortalha das suas gentes. Cantou a beleza do Douro e o desespero do traçado coleante obrigado a esventrar as entranhas da terra, cantou os vinhedos desde o tempo de Baco, o telúrico e as rugas da terra, a simplicidade do linho onde nasceu, a resiliência dos nativos e o choutar de azémolas intemporais que transportavam a carga e cantou o Reino Maravilhoso.

Ai do trasmontano que não transforme o pé em garra para vencer o declive das montanhas, referia.

No conto, na poesia, nos Diários, na escrita autobiográfica cinzelou a língua que é a nossa, talvez como ningúem.

O texto curto dos Diários visto e revisto vezes sem conta não tem uma palavra a mais, uma explicação que o desmereça nem gongorismo que o acrescente. O pensamento aconchega-se, condensa-se nas palavras, sempre poucas, sempre a parecerem curtas mas  a dizerem tudo como se nelas coubesse o mundo.

Se Torga tivesse sido escultor da pedra certamente que seria autor do túmulo de D. Pedro e Inês, das mais belas obras da criação feitas pelo cinzel de autor desconhecido.

Torga que não era de esculpir ataúdes, cinzelou a língua, expressão do pensamento; as palavras como as peças de uma engrenagem ganham vida e funcionalidade; às vezes sufocam-nos de tanta beleza.

Na “Criação do Mundo” desnudou a alma tal como o fez Neruda, em “Confesso que vivi.”

No dia 26 de abril de 1954, em São Martinho de Anta, escreveu um poema a um negrilho centenário:

“Na terra onde nasci há só um poeta; os meus versos são folhas dos seus ramos.

Mais à frente: Esse poeta é tu, mestre da inquietação; Serena! Tu, mortal avena…Onde os pássaros e o tempo fazem ninho”.

Não sabemos por que transcendência a raiz do negrilho de quase três toneladas se converteu em Torga esculpido pela mão de mestre Óscar Rodrigues.

O negrilho, é hoje Torga pelo escultor como se fossem metonímia do mesmo ser.

A obra é sublime porque imortaliza ambos os poetas.

Torga merece todas as polémicas causadas pela escultura, forma de o recordar e convite para o ler.

São Martinho de Anta tem sabido merecer este filho resmungão, inquieto, às vezes de mau feitio, mas genial.

Os peregrinos da literatura ali têm acorrido ao Centro Miguel Torga e a São Martinho de Anta em demanda do aconchego da sua escrita.

Afinal, nas pequenas terras também nascem grandes homens.

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