Sábado, 17 de Janeiro de 2026
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Tradição e Progresso na Igreja

Foi indisfarçável que o Pontificado do Papa Francisco foi marcado por algumas tensões e confrontações entre os denominados conservadores e progressistas dentro da Igreja, e chegou mesmo a pairar no ar a ameaça de um cisma ou de uma profunda cisão na Igreja Católica, o que teria consequências imprevisíveis.

Alguns consideram que esta divisão entre conservadores e progressistas é uma forma enviesada e pouco correta de olhar para a Igreja, até revestida de alguma tonalidade política e ideológica, e pode até arrastar muitos católicos para discussões e antagonismos superficiais e despropositados. Na verdade, só há uma Igreja, a Igreja de Cristo, à qual pertencemos desde o batismo, há uma só fé partilhada por todos, que não está sujeita aos humores de cada tempo, e um só Evangelho para viver, todos unidos na missão de o viver e anunciar e de construir o Reino de Deus na terra dos homens. Por isso, na Igreja não deve haver conservadorismo nem progressismo. A Igreja não se constrói nem existe para ser subserviente às ideias pessoais dos seus membros, nem para existir a toque de caixa das ideias e modas de cada tempo.

No entanto, a Igreja caminha no tempo. Não é uma instituição parada na história. Está no mundo e vive no mundo. E o mundo pula e avança, mundo que apresenta sempre novos desafios, problemas, apelos, mudanças, modos de vida novos, transformações e inovações, e reclama caminhos novos e soluções originais.

Apesar de ser presença e sinal do eterno na história e no tempo, a Igreja tem de saber ser Igreja para cada tempo, saber viver em cada tempo e saber ir ao encontro das exigências e sinais de cada tempo, sem deixar de ser sempre a Igreja de Jesus Cristo. É o que habitualmente se diz saber adaptar-se aos tempos, sendo que adaptar-se aos tempos não é tornar-se igual aos tempos. Cada tempo traz coisas boas, mas também traz coisas más. É preciso uma filtragem e uma leitura serena, aturada e crítica de cada tempo, na escuta do Evangelho, para se promover a mudança. Aqui é que, por vezes, aparecem os conservadores e os progressistas, os que preferem manter tudo sempre na mesma, que acham que “Deus é sempre o mesmo”, refastelados nas certezas, regras e dogmas de sempre, e os que defendem atualizações constantes da Igreja, fascinados pela novidade. A uns talvez seja oportuno lembrar que a tradição não é imóvel, deve ser criativa e saber inovar, o Evangelho é vida e movimento; a outros lembrar que o progresso nem sempre é bom.

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