Prontamente o adquiri e ao lê-lo, pude concluir que correspondeu totalmente às minhas expectativas, não só pelo seu caráter autobiográfico, mas também pela diversidade de episódios nele contidos que o autor descreve primorosamente, enriquecidos, aqui e ali, pelo retrato social e psicológico que caracteriza a sua descrição meticulosa. Tendo ido para Angola no desempenho da sua atividade profissional, como médico pneumologista, a convite do Ministério do Ultramar, para dirigir o Sanatório de Luanda, passou grande parte do seu tempo como responsável pela direção do dispensário do Bié, em Silva Porto, enquanto a unidade hospitalar luandense não ficou concluída e a funcionar.
Da sua leitura atenta, dois episódios marcantes ficaram retidos na minha memória. Um deles tem como protagonista a Irmã Florence, freira de origem francesa, que prestava apoio aos doentes tuberculosos, internados na secção de Isolamento, por quem A. Passos Coelho tinha uma predileção especial, o outro refere-se a um seu antigo colega do Hospital dos Capuchos, 15 anos mais velho, que anos antes o tinha tratado da tuberculose que sofrera no último ano de medicina.
Por limitações de espaço, vou cingir-me apenas ao segundo, por considerar que espelha bem o ambiente agitado e camaleónico que se vivia na antiga capital do império, por ocasião do PREC. Nessa época, numa deslocação a Lisboa para participar num simpósio, dirigiu-se ao Hospital dos Capuchos para visitar o seu colega mais velho, tendo ficado surpreendido ao vê-lo desengravatado, com o colarinho desabotoado a ver-se «o cimo do esterno e os pelos nele implantados». Frequentador assíduo das melhores alfaiatarias da capital, com consultório luxuoso na Av. da Liberdade, onde era atendida muita da seleta sociedade alfacinha, tão drástica transformação daquele clínico causara-lhe um enorme abalo. Verificou então, que aquele seu antigo colega tinha virado comunista pós-25 de Abril, segundo lhe confidenciara um colega do Caramulo. A sua estupefação era tanta, que lhe veio à memória o ocorrido consigo há 24 anos, tinha dele recebido uma reprimenda por se ter deslocado ao seu consultório sem gravata, situação que lhe mereceu uma severa admoestação, aconselhando-o a não comparecer sem aquele adereço da próxima vez que ali se deslocasse.
Estes dois episódios, à mistura com muitos outros, revelam a excelente qualidade narrativa desta obra romanceada, por um transmontano ilustre que além de distinto pneumologista foi também um grande escritor.
Aconselho vivamente a sua leitura.




