Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2026
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Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Álvaro de Matos-Rainho e o motorista da Borrona

Era domingo e bem cedo ainda, a lua vogava bem alto no céu estrelado.

A Banda de Mateus fazia-se transportar na camioneta de caixa aberta da Borrona, conduzida pelo motorista Ribeiro, também ele elemento da banda. Este músico de trombone, ia já fardado e para não adormecer passava a viagem em redobrados assobios, trinados de rouxinol, rebobinando-se em temas que a banda havia de tocar no grande arraial.

Na viagem havia alguém que como poeta inspirado se plasmava a olhar as serras dotadas de original grandeza. Era o caso de Álvaro Rainho, tocador afamado em trombone e mais tarde em pratos e bombo.

A Banda de Mateus rumava a Castro Daire. As estradas eram duras e tortuosas, serpenteadas e perigosas que faziam bambolear os músicos pendularmente como mãe embalando o bebé em compasso binário. O frio enregelava os corpos, humedecendo as pontas dos narizes…

Havia vastos silêncios sobre as aldeias por onde passavam… ouviam-se sons da noite que ecoavam misteriosos como zunidos de vento que adormecem os justos e os santos.

À medida que o tempo passa, a paisagem desdobra-se em pequenos regatos nostálgicos, em ravinas abruptas, em pequenos lugares cheios de encantos abençoados por pequenas capelinhas e gado a pastar nos vales.

Já no despertar da aurora, na aldeia de Moura Morta, bem perto da Capela de Nossa Senhora da Ouvida, mexiam-se pessoas de pé descalço, maltrapilhos do farrapo, rostos pálidos da fome e dos sonhos frustrados.

A Banda de Mateus ia confrontar-se com a famosa Banda Musical Rerizense, dirigida pelo regente Pinto Osório, pontificando nela um naipe de trombones temido em bandas das redondezas.

O arraial foi renhido na disputa das filarmónicas. A Banda de Mateus dizia-se, que deu uma valente coça na sua rival. Os de lá tinham uma opinião contrária.

Já no final, Álvaro Rainho abordou o mestre da Banda de Reriz com sorriso triunfante e um tanto provocador: – Então senhor Mestre, ouvi dizer que tem aqui uns bons trombones, mas não os ouvi… – Resposta envergonhada: – Pois, quando eles souberam que Mateus trazia o Rainho e o Ribeiro, ia-lhes dando o fanico, eu bem puxava por eles, mas das suas campânulas só saíam pífios sons como reza de velha em ato de confissão.

A homenagem que presto a músicos desta estirpe, representa um indeclinável dever, porque eles foram traves e candeias que derem força à alma de músicos vindouros. Eles são uma espécie de musas inspiradoras.

Os dois foram eminentes artistas no conjunto fulgurante da espiritualidade excelsa de outros músicos que pontificam no quadro de honra da história da Banda de Mateus.

Histórias desta natureza nunca mais se repetem.

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