Quarta-feira, 20 de Outubro de 2021
Victor Pereira
Pároco. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Dar mais atenção aos mais velhos

Está-se a criar o costume de se assinalar as etapas da instrução escolar, por muito curtas e incipientes que ainda sejam.

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Vemos muitas crianças e jovens a exibirem orgulhosamente um diploma ou uma lembrança com a etiqueta finalista, e uma boa parte das escolas organizaram a festa dos finalistas, até para os jardins de infância. É manifestamente exagerado. Parece-me é que os verdadeiros finalistas, que merecem de facto uma grande homenagem, são os grandes esquecidos dos tempos atuais, como é o caso dos mais velhos, que já estavam a pagar uma dura fatura antes da pandemia e continuam a pagar uma pesada fatura na pandemia.

Muitos praticamente nunca tiveram uma festa de reconhecimento do seu trabalho, por muito humilde que tenha sido, durante a vida. Trabalharam imenso e só Deus sabe em que condições, não tiveram nem de longe nem de perto a abundância, o conforto e as regalias que as atuais afortunadas gerações têm. Lutaram e trabalharam até à dor pela sua vida e pela dos filhos, foram os grandes obreiros do mundo em que vivemos. Em troca, têm recebido penosas horas de abandono e esquecimento, sem voz, marginalizados por um mundo que não tem tempo para eles nem quer saber das conquistas deles. Uma boa parte deles vive na solidão, outros foram retirados de suas casas por filhos que os querem ver arrumados num canto qualquer, em nome de vidas mais cómodas e egoístas, onde ninguém está para aturar ninguém, onde o sentido de dever já se perdeu e os afetos mais sagrados de sagrado já não têm nada. Resta-lhes acabar a vida amargurados e tristes, porque já são um peso para os filhos e para a sociedade. Estão no fim, os verdadeiros finalistas, de uma vida honrada, dedicada, trabalhosa, árdua, lutadora, frutuosa, mas ninguém vai a correr para ao pé deles para lhes fazer uma festa e lhes mostrar carinhosamente como eles ainda são importantes e merecem toda a atenção e gratidão.

Estão completamente votados ao esquecimento e vergados à mais completa inutilidade.
Um bom número de velhos está reduzido a uma multidão anónima de quem ninguém se importa, e é bom que continuem escondidos porque hoje, veja-se lá, numa sociedade de gente muito sensível, não se pode ver a doença, a fragilidade, a caducidade da vida humana, a epiderme rugosa e granítica da velhice, os músculos escanzelados de um velho, é melhor mascarar a vida, fazer de conta tontamente que isso não vai aparecer na vida e fingir que nunca nos vai acontecer. Nunca vamos ser velhos.

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