Nesse domingo, 14 de agosto, a Banda de Mateus tinha uma festa do “Anjo da Guarda” em Castro Roupal, e eu, maestro por vocação e convicção, não me imaginava estar ausente desse serviço.
Pedi ao diligente diretor da banda, António Matos, que me fosse buscar. E ele foi, mesmo contra todas as recomendações do médico que se preparava para me operar. Estupefacto ficou quando lhe disse que não queria ser operado porque a Banda de Mateus tinha um serviço em Castro Roupal e precisava de mim. Saí do hospital, fraco e sob efeito de anestesia. Percorremos mais de duzentos quilómetros até à aldeia do nordeste transmontano, onde o povo nos esperava com festa e emoção.
À tarde, no primeiro concerto, não consegui subir ao coreto, muito menos dirigir… as forças não me permitiram. Mas, Carlos Silveira, meu irmão e músico da Banda da Armada e da Orquestra de S. Carlos, assumiu a batuta com firmeza. E a festa aconteceu – não como eu a tinha imaginado, mas talvez de forma ainda mais simbólica que havia de ficar para a história da Banda de Mateus.
A população de Castro Roupal foi extraordinária. Percebendo o meu estado de saúde, acolheu os músicos com carinho, tratando-os com um respeito e uma compreensão que me marcaram para sempre. Foi um daqueles momentos em que o silêncio diz muito mais que qualquer discurso.
A cirurgia só aconteceria no ano seguinte, depois da Páscoa. Fui para Lisboa com o meu irmão Mário, não para ser operado, mas simplesmente para passar uns dias fora de Mateus. Pelo efeito da atribulada viagem, eu piorei ao ponto de gritar porque me doía o corpo todo. Em casa do meu irmão Carlos, as dores durante a noite eram insuportáveis e fui transportado numa ambulância para o Hospital de Santa Maria às cinco e meia da manhã já em estado crítico. À chegada, na sala de operações, o médico para me distrair perguntou-me qual era o meu clube de futebol e eu sabendo da minha situação clínica, apenas lhe disse: “doutor opere-me já…”
Fui salvo por um grande cirurgião. A vida, por alguma razão, deu-me uma segunda oportunidade.
Ser maestro nunca foi para mim apenas dirigir uma banda. Foi ser parte dela – com o corpo, com a alma, com tudo o que sou. Ser maestro é sentir profundamente as vibrações do corpo, e acima de tudo amar a vida e descobrir o sentido de cada som, o pulsar atento de cada respiração… é escutar o silêncio dos que ouvem, ler nos olhos dos músicos a entrega, e transformar cada gesto em comunhão de sentidos, como se a batuta fosse a ponte entre o humano e o eterno.






