Quinta-feira, 21 de Outubro de 2021
Victor Pereira
Pároco. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Iliteracia Bíblica

Foi uma pena que a Palavra de Deus não continuasse a ser debatida nos programas de televisão e nas redes sociais, depois da polémica que se levantou sobre a leitura de S. Paulo, que falava da “submissão” das mulheres aos homens.

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O domingo teria outro encanto se passássemos a debater as leituras dominicais nos areópagos contemporâneos, ainda que, por vezes, néscios, precipitados, tribalistas e coléricos, e escrevo sem ironia. Pelo menos levaria as pessoas a lerem a Palavra de Deus e a descobrirem a maravilhosa mensagem que ressuma dos seus textos, que marcou profundamente a nossa cultura ocidental. Da polémica ficaram claras duas constatações: anda por aí muito simplismo e superficialidade no debate dos assuntos, ao sabor da indignação instantânea, fácil e popular, onde há emoção a mais e racionalidade a menos; e há, sobretudo, uma grande iliteracia bíblica na sociedade e dentro da Igreja. Depois da labareda inflamada da indignação e da discussão, quem terá tido o cuidado de ler os bons artigos que esclareceram o texto? Quantos ignorantes se retrataram e refizeram os danos das baboseiras que disseram? Devíamos ter mais determinação em aprofundar os assuntos e termos mais respeito pela verdade. Só que isso, hoje, não interessa.

A mim, enquanto padre, preocupa-me, sobretudo, a iliteracia bíblica que ainda reina dentro da Igreja, principalmente de muitos leigos. Penso que, nas paróquias, a Igreja deve relançar e apostar seriamente no ensino da Sagrada Escritura, levando o povo de Deus a redescobrir o admirável tesouro da Palavra de Deus, a saber a sua história, a saber interpretá-la e compreendê-la, para grande vivência espiritual, mas também para saber falar dela na sociedade. As leituras de domingo e a respetiva homilia são insuficientes para se ter formação bíblica. Aliás, embora por lá possa passar, a homilia não é um espaço para pacientes exegeses bíblicas. Promoveu-se na Igreja uma cultura de piedade muito centrada nos sacramentos, nas celebrações cultuais e nas devoções, e ficou para trás a formação bíblica dos crentes, que é decisiva para o testemunho, a evangelização e a maturidade cristã. Ensinar Bíblia dá trabalho, é mais fácil centrar a vida da Igreja na liturgia, no “amor a Nosso Senhor”, mas o amor a Nosso senhor passa primeiro por ouvir, estudar e compreender a sua Palavra, sem a qual não há uma relação séria, verdadeira e fecunda com Deus. A riqueza da Bíblia não pode ser um privilégio de académicos ou de uma elite erudita.

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