É certo que o antigo Presidente da República sempre se manifestou contra a manutenção dos antigos territórios de além-mar, defendendo a sua independência, porém, isso não faz dele o principal responsável da tragédia em que se transformou a descolonização.
Há um episódio narrado no livro “Otelo O Revolucionário”, de Paulo Moura, que desmente as atoardas que se têm propalado no espaço mediático sobre esta figura marcante das últimas décadas da vida nacional.
Em junho de 1974, Mário Soares, na qualidade de ministro dos Negócios Estrangeiros, foi a Lusaca, capital da Zâmbia, para iniciar conversações com o líder da FRELIMO, Samora Machel, levando Otelo na comitiva, por insistência da Comissão Coordenadora do MFA, junto de Spínola. Otelo chamado de emergência ao Palácio de Belém, algo surpreendido, terá perguntado ao homem do monóculo, o que ia fazer, tendo recebido a seguinte resposta: «Vai representar o MFA, e vai vigiar o Mário Soares, porque eu não tenho confiança nesse gajo».
O objetivo principal da missão portuguesa era o de obter um cessar-fogo, para depois se conseguir um acordo mais alargado, não tendo sido possível conseguir tal pretensão devido às exigências de Samora, dentre as quais sobressaía o reconhecimento da FRELIMO como único representante do povo moçambicano. Soares, ao tentar demover Machel da sua irredutibilidade, foi confrontado com a posição extemporânea de Otelo ao declarar alto e bom som que Moçambique deveria ser reconhecido como país independente e entregue incondicionalmente à FRELIMO.
Durante a troca de argumentos entre as duas delegações o ministro português pediu um intervalo e agarrando Otelo para um canto disse-lhe: «O senhor major está a colocar-me aqui numa situação muito complicada. Eu estou a fazer esforços no sentido de obter um cessar-fogo, e o senhor toma esta posição? Mas qual é o meu papel no meio disto tudo?»
«Senhor doutor, não se preocupe, que eu vi que procurou cumprir à risca a missão que lhe tinha sido atribuída pelo general Spínola. Mas essa não é a minha posição, nem a do MFA. Nós achamos que a FELIMO tem razão».
A reunião foi inconclusiva, tendo-se virado o feitiço contra o feiticeiro, como sói dizer-se. No regresso da comitiva Spínola, ao tomar conhecimento do comportamento de Otelo, ficou furioso, evidentemente.
Mário Soares, alvo da desconfiança do então Chefe de Estado, afinal acabou por se revelar um estadista na defesa dos interesses de Portugal e Otelo, com a sua postura, acabou por servir outros interesses, que não os do seu País.



