Tudo tem a ver com a estátua de David, o herói bíblico que foi rei dos judeus, esculpida entre 1501 e 1503, pelo genial Miguel Ângelo e que podemos admirar em Florença. Há quem aponte um mistério a esta obra pelo facto de o “pénis” de David estar integro, sem a circuncisão feita. De facto, é conhecida a regra sagrada dos judeus desde que Deus a transmitiu a Abraão: “Todo o judeu deve ser circuncidado” (Génesis, 17:10). O livro sagrado dos judeus, o Talmude que representa o conjunto da Bíblia – a lei de Moisés, reflecte a visão do mundo do povo judeu, expressa através de uma religião, uma filosofia, uma história, uma moral, uma astronomia e um modo de vida. Ora, o Talmude impõe regras de higiene coletiva ao povo judeu, representando a sua infracção uma ofensa feita a Deus. Entre essas obrigações de higiene figura a circuncisão, como selo da aliança existente entre o povo e o Senhor.
A questão para os puristas crentes da religião judaica é se Miguel Ângelo (MA) cometeu um erro propositado ou involuntário. Para os especialistas e apreciadores de arte, isto nunca constituiu problema porque, numa obra de arte de tal grandeza, trata-se de um pequeno detalhe que não tem qualquer interferência na perfeição e na beleza da estátua de David. Os entendidos nestas matérias defendem que um génio como MA concebeu e realizou esta estátua, simbolizando David, de acordo com a sua interpretação e com o seu espírito criativo, não copiando nem sendo condicionado por nada, quer seja a natureza, a história, os acontecimentos bíblicos, etc.. O artista cria, interpreta e recria, tal como o fez em muitas outras obras suas de que o exemplo máximo são as pinturas na Capela Sistina.
O David de Miguel Ângelo não é uma estátua de um judeu, ou de um cristão, ou de um muçulmano, ou de um italiano, ou de um florentino, etc., mas antes a representação esculpida do belo, do perfeito, de um ideal de masculinidade. “Quando a estátua de David, com 5,17 metros de altura, foi destapada na Piazza della Signoria, sede da governadoria de Florença, no dia 8 de Setembro de 1503, repleta de florentinos ansiosos por a contemplarem, ouviu-se um troar de aprovação numa reacção tão imediata e tão intensa que se acompanhou de desmaios e de orações de agradecimento ao Senhor pelo milagre concedido a MA, autor da obra.
De facto, a imponência e a perfeição da estátua onde sobressaíem o realismo do corpo nu e o predomínio das linhas curvas, conferiam-lhe uma tal beleza que muitos acreditaram que MA foi guiado pela mão de Deus na realização desta obra-prima. MA avaliou as reacções ao seu David de diferentes perspectivas. Aos olhos dos súbditos da igreja, David era uma figura de fé; para um soldado, agitando uma bandeira florentina, era o símbolo da coragem; uma bela donzela entendeu-o como objecto de desejo; para o pai do artista, era um motivo de orgulho. De imediato, MA percebeu que David já não era seu e pertencia a cada uma das pessoas que estavam na praça, a cada florentino, a cada peregrino que o viesse ver.” MA recriou David como símbolo do poder, mas acima de tudo como o paradigma de uma beleza masculina absolutamente imaculada.
Nada nem ninguém pode diminuir o valor absolutamente extraordinário desta imortal obra-prima da arte renascentista. Hoje em dia, David é considerada a escultura mais famosa do mundo, com mais de três milhões de pessoas a viajarem todos os anos para a visitar na Galeria da Academia de Belas Artes em Florença, para onde foi transferida e 1873.






