Sábado, 22 de Junho de 2024
No menu items!
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Montra de vaidades em mentes ocas

Todos os dias é um espetáculos.

-PUB-

Chovem notícias, surgem fotografias nas redes sociais, corpos ao leu com desvergonhas e falta de pudor. Fotografias raramente atuais. Não, elas não querem envelhecer, apenas impressionar atualizando fotos cujos corpos já não lhes pertencem, e de um dia para outro lá vem mais uma, à espera que do lado de lá alguma criatura diga: “ui, que linda que estás Joana, oh, tás sempre bonita, os anos não passam por ti, continuas uma gatona brava”.

Se é homem, e sabendo da idade real, elas lá vão dizendo: “como eu te conheci assim, eras um galã, um giraço, todas te queriam, todas sonhavam contigo”.

O Facebook, é pois uma feira de vaidades. A cada momento somos torpedeados com imagens repetidas, notícias já gastas e regastas, filmes entorpecidos pelo furor do tempo.

Todos os dias estafadamente se despejam assuntos que ninguém quer saber, ou porque só falam de guerra, ou porque procuram lembrar um currículo já velho na ânsia desesperada de memorar que já fomos pessoas importantes e que agora, não fazendo nada, queremos mostrar à saciedade os galões caducos que outrora ostentámos.

Todos os dias lá vêm fotografias velhas, carunchadas, enviesadas, empobrecidas, mortas no olhar, sem luz nem esperança.

Todos os dias há pessoas que procuram obstinadamente omitir a idade exibindo fotos antigas, algumas ainda do tempo da escola e que agora são avós maduras e experimentadas. A importância de cada um deve avaliar-se por aquilo que hoje ainda somos capazes de fazer em benefício alheio. Solidariedade e altruísmo fazem falta nos tempos de hoje onde dominam os estilhaços arreliadores do maldizer e das invejas assustadoras.

Como seres sociáveis devemos saber viver em sociedade, no berço da humildade para que outros nos aceitem no conforto da mesma caminhada célere da vida.

Afinal, se somos apenas retalhos do passado, não vivemos o dia de hoje, não somos felizes, apenas nos escondemos numa redoma de vidro, vivendo sofridos e martirizados porque cortamos a nossa própria liberdade, a liberdade de reconstruirmos a força da nossa dignidade.

Vivemos a obsessão do corpo, porque a velhice é sinónimo de fragilidade, doença, ausência de produtividade e acumular de despesa. Tudo o que esta sociedade não precisa e não quer.

É pois necessário reinventarmos uma forma de estar coletiva, justa, igualitária onde a velhice não seja segregada e o envelhecimento do corpo seja aceite como algo que faz parte da nossa condição de vida. É preciso de vez em quando esquecer o Facebook e ir para a rua gritar na demanda de um amigo e com ele conversar despreocupadamente, ouvi-lo até que um outro amigo apareça no horizonte dos nossos desejos.

Hoje estamos a ser corroídos pelo verme das tecnologias que a não serem bem utilizadas, acabamos por ficar submersos no mundo da mentira e do descalabro social.

OUTROS ARTIGOS

ARTIGOS DE OPINIÃO + LIDOS

Notícias Mais lidas

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Subscreva a newsletter

Para estar atualizado(a) com as notícias mais relevantes da região.