Segunda-feira, 4 de Março de 2024
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Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Músicos fogueteiros

Em algumas festas, havia durante o dia e a noite revoadas de foguetes que faziam as delícias do povo.

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À noite, para além da atuação das bandas de música, os foguetes eram a outra atração que no ar iluminavam os céus que ficavam aureolados de luz e beleza, os olhares fixavam-se suspensos e hipnotizados, os chapéus dos velhos revirados para trás, as mães protetoras que apertavam os filhos no colo para os protegerem das canas que caíam. Eram quadros de encantamento, oportunidades para beijos e apertões furtivos.

Era prática, um músico da Banda de Mateus, trazer da festa um ou mais foguetes, chamados morteiros… Morteiros, porque ao rebentarem, o seu estrondo era tão forte que fazia estremecer tudo o que estivesse à sua volta. Por outro lado, o seu rebentamento, já em Mateus, anunciava a chegada dos músicos, assim, as famílias preparavam-se para receber os seus heróis vindos de terras por vezes muito distantes.

Normalmente, havia um músico incumbido de fazer estoirar o tal morteiro seco no largo da Droa em cima do muro perto da igreja.

O prazer de chegar o fósforo à pólvora, que rapidamente rastilhava, era uma sensação indescritível que cabia a poucos porque nem todos ousavam fazê-lo com receio que a pólvora lhes explodisse nas mãos.

Um dia, um músico recordou que num ano muito distante um foguete estilhaçou um colega filarmónico muito jovem, ousado e inexperiente. O rapaz queria fazê-lo para impressionar uma rapariga por quem estava apaixonado. Quando ela soube o motivo da morte desse tal músico, passou anos sem namorar e raramente saía de casa. Sim, ia à missa e fazia questão de ajudar o Arcipreste José da Silva Faceira, sobretudo, nas Leituras do Evangelho e na distribuição da Hóstia Sagrada.

Nas festas, quando os foguetes subiam ao ar, ela, traumatizada, tapava os ouvidos e fechava os olhos e uma lágrima sofrida caía-lhe pelo rosto.

Casou já tarde com um homem de muito mais idade, porque, em Mateus, era uma vergonha não casar… maior ainda, casar e não ter filhos.

Quando um morteiro subia às alturas do infinito, todos os músicos se reconfortavam numa espécie de missão cumprida. Neste quadro aprazível, os galos em Mateus cantavam mais cedo, os cães ladravam e quem estava acordado sorria de satisfação.

Vários viciados deste ritual passaram pela Banda de Mateus. Entre outros sinalizamos: Valter Silveira, José Martins, António Meco, Zé Barrias, José Luís Silveira… Enquanto músicos da Banda de Mateus, estes fogueteiros de ocasião sentiam-se felizes e com um certo estatuto e consideração dos colegas.

O foguete, na chegada da Banda de Mateus, foi sempre uma marca indelével de chegada. Um sinal de triunfo. Um símbolo de missão cumprida.

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