Quinta-feira, 13 de Junho de 2024
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António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO | Ex-Governador Civil, Ex-Deputado, Presidente da Assembleia da Freguesia de Vila Real

No 50º aniversário da Guiné-Bissau – 50 anos de Abril

Madina de Boé continua no imaginário da generalidade dos antigos combatentes que passaram pela Guiné.

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Então, como uma zona abandonada; antes, como um sítio para onde ninguém queria ir. Ali havia sido declarada a independência da colónia portuguesa a 24 de setembro de 1973, onde a guerra se mostrara sempre mais difícil para os jovens feitos soldados que para ali eram enviados. A proximidade da fronteira com a Guiné-Conakri podia explicar algumas das muito más situações que por lá se viviam. Recordarei sempre como um familiar me narrou as peripécias do abandono daquela zona e da passagem do rio pelos últimos homens em retirada. Outras localidades acompanhavam essa memória, como Guiledje, ocupada em maio desse mesmo ano, ou Gadamael que, equiparada num programa da SIC ao Nambuangongo do poema de Manuel Alegre, onde “a gente pensa que não volta/cada carta é um adeus em cada carta se morre/cada carta é um silêncio e uma revolta. Em Lisboa na mesma isto é a vida corre. /E em “Gadamael” a gente pensa que não volta”. Como em Nova Sintra, Jabadá, Fulacunda ou Binar.

Portugal esteve bem ao fazer-se representar ao mais alto nível nas cerimónias que decorreram na semana passada. Mesmo que a crise que alguém provocou nos tenha desviado a atenção do mais importante, celebrar com um país irmão uma data memorável.

23Decerto que os antigos combatentes naquela colónia se sentiram bem representados. Afinal, havíamos sido empurrados para uma guerra sem sentido – mas será que alguma guerra tem sentido? – onde deixámos um pouco de cada um, quando não foi o caso de termos sido apanhados por uma mina traiçoeira, pelos estilhaços de um míssil, ou por uma bala perdida no capim.

Os MIGs que víamos passar e nos atormentavam, porque sabíamos que os nossos FIATs, muitos embora excecionalmente pilotados, não tinham a mesma capacidade. Quantas vezes contámos as estrelas por detrás de um bagabaga, na emboscada! Ou sentimos o estalar do capim seco embalado pelo vento, no regresso de uma operação! Os que lá estávamos no Abril libertador de 74, para nós e para os guineenses, não esquecemos o que sentimos quando soubemos pela BBC, como aconteceu por Binar, o que se passava em Lisboa, que já não era “na mesma”, ou quando nos encontrámos com aqueles que nos emboscavam ou que nós emboscávamos, abrindo caminho para a paz. Senti, por estes dias vontade de regressar ao Enxudé, a Tite e a Binar. Para celebrar o(s) 50º(s) aniversário(s).

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