Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2026
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Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O Natal da tia Pastora

A chuva e o frio pertenciam por inteiro a essa quadra de Natal. A neve coloria a paisagem, pintando as serras e os lugares mais altos das redondezas.

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O frio, nessa noite de Natal (1914), era glaciar. As lareiras alimentavam-se de calor e as casas aqueciam a alma de todos. Nesse cenário acolhedor, contavam-se histórias, algumas de ocasião.

“Conte uma história mãe, conte!…” suplicava a Lúcia. Tia Pastora narrava o nascimento de Jesus de tal forma, que os filhos choravam ao ouvi-la. Aquela mãe tinha uma fina habilidade para prendê-los nas suas narrativas. O escano era pequeno para todos e alguns sentavam-se no chão para ouvirem a ternurenta mãe.

– Mãe, conte aquela do Zé do Egito, implorava a Donzília…

Tia Pastora, nessa noite, não recusava os pedidos dos filhos, querendo com as histórias contadas, compensá-los de uma educação escolar que não puderam ter. O marido, funcionário dos caminhos de ferro, fora surpreendido pela morte que, na forma de pneumonia, o minara de forma galopante. Temperamental, com o seu geniozinho, Pastora soubera perdoar-lhe, porque a pobre mulher dizia, que só Deus tinha o poder de castigar…

Embalados na ternura do colo da progenitora, as duas camas esperavam a filharada. Como sardinha enlatada, quase não se podiam mexer. O António, já na cama pedia: – mãe, conte só mais uma!” A tia Pastora aconchegava-os de um lado para o outro, mas a maior proteção era o abraço docemente entrelaçado que só uma mãe sabe dar.

Lá fora, os assobios do vento bailavam como animais à solta, a porta da cozinha rangia em cadência de marcha marcial, mas a canalha já dormia, na paz do amor da mãe. Agora, a tia Pastora iria anichar-se num qualquer canto da cama. A magia funcionava. As suas mãos meigas abriam brechas num espaço quase inexistente. Ao cair no leito, já o sono a cobria. E dormia porque todos dormiam. Lá fora, a neve cobria os espaços…

Tia Pastora dizia que as dificuldades materiais, eram compensadas com a riqueza dos filhos, ali estavam os tesouros maiores do mundo. Naquela noite de Natal, o sono cobria-se de esperanças. Ao acordar, deu graças a Deus por vislumbrar nos filhos a sua felicidade. Os meninos da tia Pastora passaram, mais tarde, a serem conhecidos por Joaquim da Pastora, Zé da Pastora, António Baleia, tia Zila, Maria Taveira (morreu no Brasil) – cada um carregando a sua cruz em obediência a uma vida subordinada à vontade de Deus e dos Anjos. Cada um, com o seu dom musical, sobretudo no toque de flautas e trinados de assobio.

Antes de morrer, já velhinha, a ti Pastora – em cadeira de rodas – recordava em lágrimas, aquela noite distante de Natal.

–Mãe, conte só mais uma história!…

E ficou no silêncio do tempo o eco da sua voz, leve como neve a pousar nos telhados, eterna como amor que nunca adormeceu.

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