Quarta-feira, 18 de Maio de 2022
Manuel R. Cordeiro
Professor Aposentado da UTAD. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Reflexão sobre algumas incoerências do ser humano

Portugal está em seca extrema em cerca de 91% do seu território.

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As consequências são conhecidas de todos e vou referir-me apenas à que diz respeito à produção de energia elétrica. 

Durante cerca de 37 anos transmiti conhecimentos aos meus alunos na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro no âmbito das cadeiras da área da energia. É nas Centrais Elétricas que a obtemos. As mais conhecidas são as Hidroelétricas que usam o caudal dos rios diretamente ou a partir de albufeiras onde a água é armazenada. As Solares Fotovoltaicas, que a obtêm a partir da radiação solar e as Eólicas que transformam a velocidade do vento em energia elétrica. Há outras, mas neste texto só me vou referir a estas.

Com a ausência de chuva, caminhamos para que as hidroelétricas tendam a não contar ou a contar muito pouco, em especial as de fio de água, que usam diretamente o caudal do rio. Para isso também contribui a crescente utilização da água das albufeiras para rega e consumo humano. Sem chuva estamos a caminhar para uma situação em que não temos água para produzir energia elétrica, para rega e para o consumo industrial e doméstico. 

O que expus devia ter-se em consideração por todos nós, cidadãos do munto. Mete-me muita confusão a histeria que hoje há na chegada dos carros elétricos. Quando no Mundo circularem milhões de carros, como vai ser? A necessidade de energia elétrica para carregar as baterias vai crescer muito, o que implica a necessidade de instalar mais centrais elétricas, ou seja, aumenta a pressão sobre o ambiente o que, entre outras consequências, contribuirá para a deterioração do ar que respiramos e para que haja menos chuva. Esta é uma incoerência de quem governa e decide. Quando os responsáveis nacionais e mundiais dizem que os carros elétricos não poluem, estão a dizer algo que eles próprios sabem que não é totalmente verdade. Desde logo por ser necessário carregar as baterias o que implica ter que produzir mais energia elétrica, ou seja, construir mais centrais elétricas. Também porque as baterias têm uma vida de alguns anos. No final é necessário dar-lhes “sumiço”. E não é fácil e barato. No que respeita às baterias, li um artigo publicado por uma equipa da Universidade do Minho, intitulado: Baterias de iões-lítio: a revolução na mobilidade elétrica?

Chamo a vossa atenção para o título.  A palavra que quero realçar é “lítio”. Portugal é o país da União Europeu com maiores reservas. É fácil esperar que a pressão sobre a sua exploração cresça à medida do crescimento do número de carros construídos. Aqui temos mais uma incoerência: o carro elétrico é o nosso futuro, mas precisamos de explorar o lítio. As populações onde as reservas se encontram tudo fazem para que essas explorações não avancem. Os governantes vão-se “adaptando” conforme lhes é politicamente mais favorável. 

Deixo-vos aqui a minha reflexão sobre este tema. A minha postura enquanto professor universitário sempre foi dar aos futuros engenheiros os conhecimentos necessários para poderem enfrentar os problemas que lhe aparecerão quando estiverem a trabalhar. O meu papel não é dar opinião. É esclarecer, dentro do que são os meus conhecimentos. É o que pretendo com este texto.

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