Sexta-feira, 24 de Setembro de 2021
Barroso da Fonte
Escritor e Jornalista. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Troca por troca morra (em casa) o Combatente

Nestes 47 anos de bandalheira sistemática, deteriorou-se a sociedade

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Chegou primeiro ao hospital de Portalegre para uma operação vulgar. Fora combatente e tinha 80 anos. Chegou depois uma ambulância com infetados Covid-19. Só um podia ficar. Ficou a Covid que chegara depois. Regressou a casa o combatente. Três dias depois morreu, abandonado.

Nestes 47 anos de bandalheira sistemática, deteriorou-se a sociedade, de tal maneira que vamos comemorar, dentro de três semanas, um período tão negro como os 48 de fascismo. Afora a liberdade que o 25 de Abril trouxe e que redundou em libertinagem, droga, prostituição e anarquia, medraram: a fome, a injustiça, a desigualdade, o desemprego, a incultura, o crime e salve-se quem puder. Basta recordar o entupimento dos Tribunais, com os casos e mais casos da corrupção, em todas as profissões, para entender que tudo vai de mal a pior.

Os Combatentes foram os primeiros bodes expiatórios, destes 47 anos da geringonçada em que continuam a ser os últimos e os mais maltratados em todas as crises.

Na penúltima semana relatei nalgumas tribunas onde colaboro, o caso de um meu colega de guerra, natural de Veiros (Alentejo) que chegou numa ambulância, ao hospital de Portalegre, para ser operado, mas não Covid. Era urgente e estava marcada a operação.
O enfermo tinha 80 anos. Foi devolvido a casa, para dar lugar a doentes com pandemia. Três dias depois morreu. E, na semana seguinte, a esposa faleceu, no Hospital de Évora, não de Covid mas de causas relacionadas com as trapalhadas por que passou o combatente. Ele fora militar em Angola (1965/67). Esse herói ignorado tinha-me enviado um cartão de B. F. de Natal. Nele me anunciava essa operação. Agradeci pelo Ano Novo. Respondeu-me o filho a relatar a morte dos pais e numa linguagem que me embargou a voz pelo desprezo que o Estado devotou aos pais.

Infelizmente não terá sido caso único.

Esta classe de ex-combatentes que ronda os 80 anos, mereceria uma prioridade perante a Pandemia. Mas, pelo contrário, o João Ribeiro morreu, por ser pobre e sem influência política. Foi afastado do Hospital para alguém mais novo, sobreviver. O poder político trabalha para as estatísticas e segue critérios injustos para cultivar as sondagens. Este caso merecia uma investigação judicial. Apenas sobreviveu um filho que me relatou tamanha injustiça. Como seu ex-comandante de pelotão deixo aqui este grito de revolta.

A classe que serviu de cobaia àqueles que fizeram o golpe militar e que, traíram aqueloutros que lhes serviram de escadote, para as promoções administrativas em que se fixaram, continua a ser «carne para canhão». Até quando?

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