E quando isso acontecia, ao passar junto da sepultura perpétua, situada do lado direito; próximo da entrada principal, era inevitável questionar-me sobre o significado da escultura em pedra de um canídeo repousando na face da campa rasa aí existente. Essa representação simbólica foi, provavelmente, a forma original de os descendentes diretos do proprietário homenagearem o referido animal pela sua fidelidade ao dono. Nessa época a sepultura propriamente dita e a sua delimitação em ferro forjado, davam já sinais de abandono, com notória degradação causada pela inexistência de alguém, ligado à família, que a pudesse manter em bom estado de conservação. Vim mais tarde a saber que, os seus legítimos proprietários, já há muito desaparecidos, eram os donos da casa brasonada conhecida por Casa dos Taveiras. Situada na zona central de Guiães passou depois para as mãos do Sr. Magalhães Novo que, posteriormente a transacionou para o Sr. Manuel António Frederico, estando atualmente na posse de um dos seus filhos.
Esta casa senhorial tem uma história a preservar, sendo que um dos factos mais importantes que importa salientar, prende-se com a circunstância de aí ter nascido, em 1820, o Dr. João Roberto de Araújo Taveira, uma das figuras mais importantes da nossa terra, praticamente desconhecido da grande maioria dos seus conterrâneos. Num interessante estudo, publicado na revista Tellus, n.º 65, de António Adérito Alves Conde, a quem aproveitamos para felicitar pelo excelente trabalho realizado, é possível retirar alguns apontamentos sobre esta figura ilustre de Guiães que, como Juiz de Direito, esteve colocado em várias comarcas, acabando por se radicar no Porto, onde desempenhou o cargo de Desembargador da Relação e se tornou amigo íntimo de Camilo Castelo Branco. Recebendo, não raras vezes, os maiores encómios do conhecido escritor. Dizia a minha saudosa mãe que, segundo a tradição oral, a procissão das festas de agosto, ao fazer um pequeno desvio no seu percurso normal, antes de atravessar o Largo do Eirô, passando em frente da Casa dos Taveiras, foi uma forma do povo antigo da terra, prestar tributo a essa família nobre que gozava de grande prestígio junto da comunidade. Situação que ainda hoje se mantém, apesar de nela não residir qualquer descendente.
Atendendo ao estado de degradação em que este edifício histórico atualmente se encontra, seria curial que os seus atuais proprietários fossem incentivados a reabilitá-lo com o apoio do poder local, através de verbas comunitárias, evitando-se assim a sua degradação total, que se nada for feito está condenado a desaparecer. O que naturalmente se lamenta.



