Domingo, 26 de Setembro de 2021
Barroso da Fonte
Escritor e Jornalista. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Combatentes tratados abaixo de cão

Mais do que as palavras do jornalista, valem os testemunhos que se seguem.

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Caro Amigo e Sr. alferes, serve esta modesta mensagem, para lhe desejar, um Santo Natal e um próspero Ano Novo. Os anos passaram por nós e trazem-nos fragilidades. Neste momento, a minha  saúde é muito frágil tenho feito várias cirurgias. Estou à espera, de que me façam mais uma. Será em Portalegre; mas quis Deus que assim não fosse. Estive mesmo à porta do bloco operatório; mas fui suspenso por troca com um surto de Covírus que chegou depois. Afinal com 80 anos, Combatente em Angola (1965/1967).

Para o fim das nossas vidas, logo apareceu esta calamidade que me impediu de ser operado. Se calhar para sempre. Fé em Deus e esperança no futuro. Despeço-me com a amizade de sempre, João Ribeiro.

Num vulgar cartão de Boas-festas de Natal, enviado de Veiros, este ex-Combatente do B. Caç. 770

(Angola:1965/67) escreveu o que acima nele se lê.

O alferes responde-lhe, agradecendo e desejando Festas Felizes.

Dia 20/02, o alferes recebe oura carta, assinada pelo filho que a seguir se reproduz:

Caro Sr., provavelmente não me conhece, mas eu acompanhava o meu Pai nos Convívios de Combatentes, durante a década de 90.

Escrevo estas linhas com a dor imensa de lhe comunicar o falecimento dos meus pais. Em 13 e em 20 de janeiro, respetivamente. Meu pai partiu primeiro, no Hospital de Portalegre que, dias antes o mandou embora para dar lugar a infetados do Covid.Se tivesse sido operado ainda hoje poderia estar cá. E evitaria a morte de minha mãe que não aguentou o desprezo do Hospital de Portalegre ao trocar um Combatente, com 80 anos por algum jovem, que, eventualmente, se terá salvo. Preferiu recorrer ao Hospital de Évora, onde morreu, vítima de paragem cardiorespiratória.

Depois deste tremendo infortúnio, também eu estive infetado, com o Covid, durante 12 dias no Hospital de Évora.

Tenho forte sentimento de que o tempo e a memória dos meus pais me vão ajudar a ultrapassar esta fase. A educação e os valores que me transmitiram, continuam a orientar-me na minha vida e são sempre um farol nos momentos mais difíceis.

Também guardo do meu pai os valores de camaradagem e do amor à Pátria que ele reforçou nos anos em que prestou serviço militar em Angola e que manteve inalteráveis ao longo de toda a sua vida.

Pelas razões expostas nesta carta, abri o seu correio que dirigiu a meu querido pai, onde se incluíam a sua carta e um artigo sobre o Monumento aos Combatentes, em Lisboa e cuja ideia se ficou a dever a si. Espero me perdoe a indelicadeza de abrir o correio.

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