Personalidade sobejamente conhecida na sua terra natal e nas aldeias vizinhas, exímio na profissão de sapateiro, dedicou, também, parte da sua vida a outras atividades de carater cultural e desportivo com implicações sociais relevantes na comunidade a que pertencia.
Habilitado apenas com a velhinha 4.ª Classe era um verdadeiro autodidata, qualidade diversas vezes evidenciada como, por exemplo, na colaboração dedicada aos ensaios das comédias levadas à cena nas festas de agosto, ao exercer com notável proficiência a função de Ponto. Envolveu-se, também, no dealbar dos anos 60 do século passado, na criação do Clube Desportivo de Guiães, ao promover, com outros companheiros, a implantação do campo de futebol, no lugar do Picoto, onde ainda hoje se mantém, para a prática do desporto-rei. Mas, o que fazia dele um ser humano de excelente sociabilidade deveu-se à circunstância de permitir que o seu local de trabalho, demandado por pessoas de vários estratos sociais e proveniências, se transformasse numa verdadeira tertúlia, onde se discutiam os mais diversos assuntos, com especial relevo para os de caráter local. Dotado de uma grande perspicácia e memória prodigiosa, nunca o vimos registar em papel o calçado recebido dos seus clientes. Colocado a esmo numa gamela, que outrora servira para amassar o pão, no meio daquele amontoado de botas, sapatos, sandálias, etc. conseguia, invariavelmente, descortinar a quem pertencia cada um desses objetos. Não obstante existir, entre nós, alguma diferença de idades nunca isso impediu a criação e fortalecimento de laços de amizade e companheirismo, pautados por vivências e aventuras diversas, partilhando, vezes sem conta, inúmeras cumplicidades, próprias desses tempos mágicos da nossa juventude.
Deixou-nos uma figura ímpar do nosso pequeno mundo, cujo nome vai ficar para sempre ligado ao património imaterial da nossa terra. Os seus restos mortais repousam agora no local onde as cinzas do opulento confundidas com as do humilde estão na sepultura, como muito bem refere, na sua poesia ultrarromântica, a nossa conterrânea e ilustre poetisa Dona Catarina Máxima (1829/ ?).
Descansa em paz estimado António.
PS – Tive conhecimento do falecimento inesperado, em S. Martinho de Anta, no passado dia 8, do meu antigo colega do Colégio da Boavista, prezado amigo e camarada da tropa, o distinto artista plástico Raul Coutinho. À sua família endereço as minhas sinceras condolências.





