Gente triste, agastada, revoltada. Certo, se calhar nem toda a gente (eu incluído, por exemplo), mas uma maioria. Deixem-me que vos diga, se é possível imaginar cenários onde em Portugal fosse desejável não ir às urnas para clarificar um diferendo que, temos de admitir, é de legitimidade política e de governação, nenhum deles se aplica a este preciso momento. Numa Democracia, qualquer que ela seja, esses cenários serão necessariamente de carácter extremo e excecional. Cenários de desastre natural, de catástrofe de saúde pública, como a mais recente pandemia, de guerra ou outros, que aqui relembro para o leitor ponderar. E o que temos agora, basta bater dois dedos de conversa casual com amigos ou conhecidos, é uma situação onde de “completamente inaceitável” até “nada de mal se passou”, existe um arco-íris de opiniões sobre a conduta de Luís Montenegro, com posições suficientemente extremadas sobre assuntos graves de ética e conduta política para que a melhor solução seja esta, ir a eleições para que o parlamento da nação reflita a opinião dos portugueses em relação este tipo de conduta “empresarial”.
Contudo, há também muita gente que anda com medo de eleições. Ou porque valoriza a estabilidade ou porque tem medo (e bem fundado) dos reacionários, que crescem nas sondagens e que anseiam pelo plebiscito não para preservar o direito ao voto, mas para o cercear. A resposta ao primeiro medo é que o país está estável e que não deve, nem pode, temer eleições. Já o segundo medo é baseado num facto histórico de peso. Em abril de 1928, Joseph Goebbels, mais tarde principal propagandista do Terceiro Reich, descreveu, num artigo de jornal, as razões pelas quais os Nacional-Socialistas, apesar de serem um partido antiparlamentar, decidiam, mesmo assim, concorrer às eleições parlamentares desse mês de maio.
“Entramos no Reichstag para nos armarmos com as armas da democracia”, explicou Goebbels. “Se a democracia for suficientemente tola para nos fornecer passes gratuitos para os comboios e salários, isso é problema dela. Não nos diz respeito. Para nós, qualquer meio que conduza à revolução é aceitável.” A república federal alemã do pós-guerra, criada sobre as ruínas deixadas pelos nazis, tem sido perseguida por esta provocação de Goebbels desde então. Como pode uma sociedade livre defender-se contra o risco de ser instrumentalizada, e potencialmente destruída, pelos direitos e privilégios que concede aos inimigos da liberdade? Não sei, mas tenho a certeza que não é evitando eleições quando os nossos líderes, eleitos, se comportam desta forma lastimável.
Anda por aí um iníquo cartaz de uma força política a dizer “50 anos de corrupção, é tempo de dizer chega”. Está na altura de algumas pessoas darem cordinha aos sapatos e recontarem os crimes, delitos e delinquências dos chefes e caciques do antigo regime que durou até 24 de Abril de 1974, para que se relembre esse passado que, sem acaso, não tinha nenhumas eleições livres.





