Segunda-feira, 15 de Agosto de 2022
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O Volkswagen de Monsenhor Miranda

A pressão era grande para a compra de um carro. Minha mãe implorava: “meu filho, tens de comprar um carro. Assim evitas de te levantar tão cedo para ires de camioneta dar aulas a Vila Pouca”.

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Já com a carta na mão e sem carro próprio, conduzo a todo o gás o Volkswagen de Monsenhor Miranda, uma bomba roladora. E faço as primeiras viagens para Nogueira cuja missão é ir buscar para os ensaios da Banda de Mateus, que eu dirijo, três músicos contratados no ano de 74/75: Álvaro, Agostinho e Acácio. Eu, ao volante, afogueado no lume da adrenalina, empenhava-me em ultrapassar era porque dominado pela vertigem insensata da velocidade.

Nestas viagens corridas em derrapagens, curvas e contracurvas, atropelamento de coelhos e lebres, nunca tive qualquer acidente. Estaria o carro abençoado? Monsenhor Miranda confiava-mo porque também ele amava como eu a Banda de Mateus.

Esses amargos dissabores estariam reservados para o acidentado Mini, comprado em 1976 por 96 contos e uns trocos. Durante esse ano, fiquei convencido que perante a experimentação de velocidades incalculadas e perigosas eu ficaria apto para qualquer desafio na estrada…mas… oh! Vã ilusão.

Em outubro de 1975 havia de comprar um Fiat 1500 por 25 contos a um negociante de fruta – cigano por alcunha – carro condenado a uma efémera existência porque o diabo não tinha amortecedores e parecia possuir uma força bruta de mil cavalos a relinchar à solta. E na rampa da Samardã a caminho de Vila Pouca, o dianho parecia levar fogo no corpo, consequentemente os acidentes haviam de ocorrer, imprevisíveis, anedóticos, hilariantes.
O Mini chegaria em breve, bonito, preto a dar nas vistas mas com vida só para 4 anos. De imediato o valorizei introduzindo-lhe um leitor áudio e com ele a tocar, eu sentia-me deliciosamente feliz.

Conduzindo-o, experimentava sensações, embalado pelas harmonias que se desprendiam das terras calmas. Mal punha o pé no acelerador, sentia que a música me transportava para o domínio do etéreo. Mas o Mini foi marcado pela sina do infortúnio, dos devaneios, dos silêncios, alguns pesados como chumbo…

Tantos carros experimentei, tantas loucuras e alegrias mas o que me deu maior prazer foi aquele Volkswagen porque foi o primeiro, e porque nele eu transportava pessoas de primeira sensibilidade e grandeza e porque aquele carro era especial, assim como o seu proprietário.

Aquele carro se falasse havia de contar que numa noite, à uma da manhã, no regresso de Nogueira depois de um ensaio, a chuva tamborilava forte e o nevoeiro era denso. Nos meus ouvidos atroavam as descargas do temporal. Não via nada à frente. Paro de repente e o Volkswagen fica à beira de uma pequena ribanceira. Mais uma roda e lá íamos nós “pró maneta”… Abre o céu e rápido chego a Mateus. Nunca contei esta odisseia a Monsenhor Miranda… se o fizesse, certamente havia de me compreender e perdoar com um sorriso rasgado nos lábios.

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