Destaco desse pequeno universo o saudoso senhor João Varandas. Devo dizer que apesar do apelido, desconheço se havia algum grau de parentesco entre nós. Tratava-se de facto, de um homem que aliava à sua boa presença física, dotes de sabedoria e afabilidade invulgares, com uma experiência de vida riquíssima, granjeada, grande parte dela, em terras gaulesas, para onde emigrou a seguir à Grande Guerra, durante o fluxo migratório que então se verificou. Tendo sido contemporâneo, nessas lides migratórias, do meu avô materno, conhecido por Luís da Choupana, e do filho mais velho, meu tio, Lucílio de seu nome.
O tio João, como era carinhosamente tratado na aldeia, durante os anos em que permaneceu emigrado, acabou por se familiarizar com a língua de Vítor Hugo e, não raras vezes, era vê-lo entabular conversa, na taberna do Manuel do Russo, num francês fluente, com os emigrantes da geração dos anos 60, que ao demandarem terras francesas, regressavam, frequentemente, às origens para matar saudades.
Era um apaixonado pelas comédias que se realizavam, anualmente, por ocasião da festa em honra de Nosso Senhor dos Aflitos. A este propósito, recordo que um dos últimos papéis por ele desempenhados aconteceu em 1973. Nesse ano foi levada à cena a Vida de Cristo, cujo papel principal, o de Jesus Cristo, foi superiormente interpretado por ele.
Dizem as gentes da terra que a caraterização da figura de Cristo, pregado na Cruz, era tão perfeita que se confundia com as imagens de cristo existentes nas igrejas.
Outra faceta, da sua vida simples e modesta, prendia-se com o seu modus vivendi. Possuía uma pequena courela situada num local designado por Gonta, e nos dias de verão, à tardinha, era vê-lo a caminho de Gonta, munido de uma pequena sachola e de um pequeno bornal, onde levava alguns petiscos para degustar, mais tarde, uma vez que só regressava a casa muito tempo depois do sol posto.
Assisti algumas vezes a esta sua rotina diária, dado que a caminho da sua courela, passava, invariavelmente, pela Rua do Carvalhal, no início da qual se localizava a oficina do mestre sapateiro António Varandas Real, e, uma vez por outra, não resistia em dar dois dedos de conversa com quem ali estivesse em ambiente tertuliano, como era o meu caso.
Homens assim, fazem parte do património histórico dos povos esquecidos do Portugal profundo, por isso, ficarão, eternamente, na nossa memória.





