Quarta-feira, 22 de Abril de 2026
Eduardo Varandas
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Um português singular

António Lobato nasceu numa aldeia recôndita do Alto Minho, em 1938, tendo, desde muito novo, manifestado o desejo em se voluntariar para servir o seu país na Força Aérea Portuguesa (FAP), como piloto, o que veio a acontecer em 1957.

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Depois de ver cumprido essa velha aspiração, partiu para a Guiné, em 1961, em comissão de serviço, e em maio de 1963 nos céus daquele antigo território ultramarino português, na sequência da colisão de dois aviões da FAP, uma das duas aeronaves despenhou-se e a outra aterrou numa bolanha tendo o piloto – António Lobato, depois de agredido à catanada, por alguns elementos da população local – sido feito prisioneiro por guerrilheiros do PAIGC e levado para a Guiné-Conakry, onde permaneceu encarcerado no temível Forte de Kindia durante sete longos anos e meio, sofrendo as mais difíceis provações.

Tentou por três vezes a fuga, sem êxito, até que em 22 de novembro de 1970, na sequência da “Operação Mar Verde”, chefiada pelo flaviense Alpoim Calvão, os 25 prisioneiros portugueses que com ele se encontravam detidos nas masmorras de um dos maiores déspotas e sanguinários líderes do continente africano, Sékou Touré, acabou por ver novamente a liberdade, como corolário dessa bem-sucedida operação militar.
Amílcar Cabral, figura incontornável dos movimentos emancipalistas africanos, líder do PAIGC, visitara-o diversas vezes, durante os anos de cativeiro, para lhe dizer que lhe custava retê-lo naquela situação e que continuava aberto a uma colaboração de molde a facilitar a sua libertação, bastando para tanto que António Lobato, fizesse uma simples declaração pública contra a guerra colonial, que de imediato seria colocado em qualquer país de Leste, onde poderia refazer a sua vida.

Este nosso compatriota, apesar de admirar o humanismo que caraterizava Amílcar Cabral – e de achar que ainda estava vivo devido ao rigor com que se fazia obedecer pelos guerrilheiros que comandava – sempre recusou as suas ofertas de liberdade, por entender que isso era trair os princípios em que assentava a sua profissão, que escolheu livremente, e na qual se sentia realizado como homem e como cidadão.

Pagou caro essa ousadia, tendo sido sujeito a maus tratos, contínuas ameaças de morte, doenças e longos períodos de isolamento sem nunca vacilar.

Se há portugueses que merecem a nossa admiração e orgulho pela coragem demonstrada, durante anos de sofrimento, no mais longo cativeiro da Guerra do Ultramar, esse português tem um nome: António Lobato.

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