Quarta-feira, 24 de Abril de 2024
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A desumanização da morte

Verificou-se grande mortalidade no país e Portugal é dos países onde mais se morre no hospital, assim noticiava um jornal por estes dias.

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Quanto ao primeiro, serão muitas as causas, desde as doenças respiratórias nesta altura do ano, o envelhecimento da população (apesar de morrerem pessoas de várias idades), mas também, quem sabe, ainda efeitos dos tempos da pandemia, o adiamento de exames e cirurgias que se verificou, a resposta insuficiente e deficitária dos serviços de saúde, entre outras.

O segundo dado, até mesmo como padre, é que me tem suscitado mais interesse e reflexão. Estamos a assistir a uma nova relação com a morte. Há umas décadas atrás, um dos grandes tabus era a sexualidade e a morte aceitava-se, vivia-se e celebrava-se com toda a naturalidade e com as ritualidades que faziam parte dela. Atualmente, a sexualidade tornou-se um tema omnipresente, sem tabus, e a morte está transformada num tabu, e tudo fazemos para vivê-la o menos possível e arrumá-la rapidamente, para não termos muito que pensar nela e na vida, o que é a pior forma de caminharmos para a morte. Quase que queremos fazer de conta que não existe ou que perturbe o menos possível.

Não há muito tempo, a morte de uma pessoa fazia parte de uma comunidade. Imediatamente todas as pessoas tinham o cuidado de se dirigir à família, dar os sentimentos, acompanhar a dor dos familiares, durante a noite organizava-se o velório, lembravam-se as grandezas e misérias do falecido, até cenas hilariantes. No dia seguinte participava-se religiosamente no funeral. A comunidade vivia a morte de um membro. Estava instalada uma cultura de humanização da morte. Esta realidade está a mudar. A morte já não é em casa, mas é numa instituição. Institucionalizou-se. Só poucos, e quando até estes poucos, acompanham os momentos finais da vida de uma pessoa. Estamos a desumanizar a morte. Era notícia por estes dias que já há empresas com quem em vida se pode contratar o funeral e todas as preocupações que ele envolve. A família será apenas informada e terá o mínimo trabalho possível. Assim vai o ar do tempo, uma morte cada vez mais solitária, fria, desligada, célere e desumanizada.

Outro sintoma desta desumanização é o tempo do luto, direito que devia ser revisto. Hoje não se deixa viver um luto digno, humano, o que é inaceitável. O luto tem de ter o seu tempo, sem pressas. Absorvidos pela burocracia da morte, aos lutuosos fica a faltar tempo para se gerir as emoções e reconfigurar a vida.

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