Quarta-feira, 29 de Maio de 2024
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João Ferreira
João Ferreira
Investigador, Professor do Ensino Superior

A eleição do fantasma do regime passado

Nas eleições para Assembleia da República ganhou, tudo indica, a coligação PSD.CDS.PPM (AD), com vantagem muito curta para o PS.

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Já na nossa região, a AD ganhou mais folgada e o CHEGA elegeu um inédito deputado, “roubando” o terceiro mandato à AD por Vila Real. Desde as eleições para a Assembleia Constituinte que apenas PS, PSD e CDS elegeram deputados por Trás-os-Montes.

Permitam-me ainda assim que, perante a singularidade deste sufrágio, teça três breves comentários sobre estas eleições, já de si excessivamente comentadas.

Primeiro, para quem justificadamente interpreta que houve nestas eleições uma significativa componente de voto de protesto, evidenciada pela substancial redução da abstenção e pelo inédito apoio à extrema-direita, tem de reconhecer que agora a única solução é o aprofundamento da nossa democracia. Uma democracia em que os cidadãos se sintam mais valorizados, os seus problemas mais representados e as suas vozes mais ouvidas (e com mais frequência). Podemos debater diversas reformas eleitorais, como a implementação de círculos uninominais e de compensação e a realização de mais referendos, mas, sem dúvida, que a regionalização representa o avanço democrático que melhor corresponde ao desejo popular e melhor protege a nossa social-democracia.

Em segundo lugar, se é claro que um dos objetivos daqueles que financiaram e viabilizaram os partidos de extrema-direita era galvanizar o voto reacionário, até agora latente, de modo a possibilitar maiorias parlamentares juntamente com os restantes partidos de direita, também é claro que a extrema-direita se metamorfoseou de solução em problema. Problema da direita e para a direita. Da direita porque ideias como as da Rita Matias, de que “… somos superiores esteticamente, moralmente, politicamente, historicamente. Nós sabemos que somos superiores.”, são opiniões que os partidos da direita tradicional permitiram sobreviver, sem contraditório, dentro das suas fileiras, como um cancro em remissão, porque lhes dava jeito terem os seus votos. Estas ideias ganham agora nova vida, ecoadas sem pudor e com convicção redobrada pelos doidos e pelos mentirosos patológicos. E para a direita porque, pese embora agora a AD desejar estabelecer cercas sanitárias à extrema-direita, ninguém acredita seriamente que seja possível à direita ter maiorias parlamentares de governo sem a sua inclusão.

Para concluir, e porque anda por aí um fatalismo e um derrotismo que antevê o esboroar da democracia liberal em Portugal, culminando, eventualmente, numa governação de extrema-direita na próxima década, a esses eu digo que não, não ocorrerá outro 28 de Maio de 1926. O regime democrático dos últimos 50 anos, não sendo de todo perfeito, representou um sucesso sem precedentes para este país. Colocou-nos, e continua a colocar-nos, no lado correto da história: o da liberdade, da prosperidade, da igualdade e, devo enfatizar, dos direitos humanos fundamentais! Pensavam que estava tudo feito, que toda a gente vivia aqui, no século XXI, connosco? Pois não, não vive. E é preciso ir lá puxá-la para a frente. Vai dar trabalho? Vai! Mas vamos conseguir. Não passarão!

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