Tais opiniões inserem-se na narrativa fabricada por setores minoritários da sociedade portuguesa, que merecem ser desmistificadas e clarificadas para evitar mal-entendidos.
Pela idade que tenho, devo referir que vivi com alguma intensidade o período do chamado Verão Quente, onde as arbitrariedades, malfeitorias e toda a espécie de desmandos, eram uma constante, com relevo para os saneamentos selvagens na administração pública, ocupação anárquica de empresas e de terras, à mistura com a anarquia reinante em grande parte das unidades militares (onde pasme-se, no Quartel-General da RMN, no Porto, havia aulas obrigatórias de Socialismo Científico, ministradas por um alferes), verificando-se nos quartéis a subversão total da hierarquia e da cadeia de comando. Estou, pois, completamente, à-vontade para discorrer, com algum conhecimento de causa, sobre esse período conturbado da nossa História recente.
Nesse sentido, ao ler há dias uma entrevista, dada a um jornal de dimensão nacional, de um conhecido ex-conselheiro da revolução, que fez parte do chamado grupo dos nove, não consegui entender o que o levou a menorizar o envolvimento de Ramalho Eanes e Jaime Neves na contenção da intentona novembrista, tratando, com desprimor, estes dois valorosos oficiais, designando Eanes por major, quando na realidade ele era à época tenente-coronel e Jaime Neves coronel graduado, contrariamente, ao tratamento dispensado a Vasco Lourenço, tratando-o por brigadeiro, quando este era, efetivamente, capitão graduado em oficial general, na sequência da sua nomeação para comandante da Região Militar de Lisboa. Não se compreende esta dualidade de critérios.
Esta deselegância e outras afrontas – repetidas vezes sem conta, no espaço mediático, por parte de alguns elementos, perfeitamente identificados –têm como objetivo descredibilizar a ação de Jaime Neves, quer no 25 de Abril, quer no 25 de Novembro, como se constata em muita da bibliografia publicada, ao omitirem, umas vezes, e outras falseando deliberadamente, a sua participação ativa em ambos os acontecimentos político-militares, que marcaram de forma indelével a nossa vida coletiva nos últimos 50 anos. Está bom de ver, que tudo isto acontece, porque o antigo líder dos comandos nunca navegou nas mesmas águas dos seus detratores.





