Destaca-se em termos culturais a passagem de Eça de Queiroz, pela nossa terra, referindo-se que era aí que o grande escritor poveiro escrevia os seus textos e que na obra literária A Cidade e as Serras, Guiães é retratada «como sendo a terra natural de Zé Fernandes, grande amigo de Jacinto, figura principal do romance.» Porém, esta ideia, enraizada na mente de algumas pessoas, carece de fundamentação e autenticidade.
Há alguns anos, depois de ler com muita a atenção, o referido livro, fiquei com a convicção que o nome Guiães era uma ficção do autor, e, em abril de 2004, resolvi escrever um e-mail à Fundação Eça de Queiroz, agradecendo um esclarecimento sobre esta dúvida, que pairava no meu subconsciente e passo a reproduzir:
«Exmos. Senhores, gostaria de ser esclarecido quanto à seguinte questão: Na obra literária A Cidade e as Serras de Eça de Queiroz, aparecem várias vezes referenciadas as povoações de Tormes e Guiães. Quanto a Tormes não restam dúvidas que se localiza perto de Santa Cruz do Douro, em Baião. O mesmo se não pode dizer de Guiães. Sabemos que existe uma freguesia com esse nome, situada entre Vila Real e Régua, equidistante em relação as estas duas cidades, afastada para nascente, no que toca a Tormes, cerca de 40 Km (oito léguas). Aliás, pela leitura atenta que possamos fazer das várias partes da obra em referência, não conseguimos estabelecer uma ligação coerente em termos geográficos entre Tormes e a freguesia de Guiães atrás citada. Quando o personagem Zé Fernandes diz, por um lado, que Guiães fica a “duas horas fartas a cavalo” de Tormes, e por outro que dista cerca de duas léguas (10 km) de Tormes, estas duas observações, para além de muitos outros pormenores existentes que são por demais evidentes, reforçam ainda mais a ideia daquilo que vimos afirmando. Para mim, Guiães é um nome fictício que aparece no texto para caracterizar uma realidade muito próxima de Tormes e mais não é do que pura coincidência o facto de existir uma terra com a mesma designação num local bastante afastado, do cenário onde se desenvolvem os principais acontecimentos associados à vida rural e sem qualquer similitude no tempo e no espaço com a atual freguesia de Guiães. No entanto, porque existe a convicção, enraizada na mente de muita gente natural desta simpática e acolhedora terra, ficaria imensamente grato se alguém da Vossa Fundação, ou qualquer queirosiano, nos dissipasse esta dúvida».
Recebi a seguinte resposta que me parece bastante esclarecedora:
«Ex.mo Senhor José Eduardo Varandas dos Santos
Acabo de telefonar a um Queirosiano que me apoiou na certeza – que aliás já tinha – de que os seus raciocínios são perfeitos e que, de facto, o nome de Guiães surgiu ficcionalmente (como aliás o de Tormes) em “A Cidade e as Serras” embora exista no mapa um “Guiães”.
Ficando a aguardar a V. visita a Tormes, à Fundação Eça de Queiroz, apresento os melhores cumprimentos.
A Presidente do Conselho de Administração
Maria da Graça Salema de Castro.»
Guiães vem retratada em obras de autores durienses como Miguel Torga e João de Araújo Correia, por exemplo. Mas, no que diz respeito ao escritor diplomata, não faz qualquer sentido, persistir no erro de uma realidade inexistente.






