Sábado, 18 de Setembro de 2021
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O Império Ultramarino e o posicionamento dos portugueses

Completam-se este mês 50 anos que parti para Angola, mobilizado em rendição individual.

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Era um sábado, esse dia 31 de julho de 1971, quando a bordo do Vera Cruz, embarcaram, do Cais da Rocha Conde de Óbidos, em Lisboa, mais de 2000 militares.

Nesse tempo, éramos mentalizados para defender os superiores interesses de Portugal nos territórios de além-mar. Interesses baseados na política integracionista e multirracial que os responsáveis do Estado Novo apregoavam, com fundamento na preservação dos direitos históricos legados pelos nossos antepassados. Porém, independentemente, do que cada um de nós pensava sobre os destinos do império, na nossa mente imperava o desejo de cumprir os 2 anos de comissão, sem grandes sobressaltos, para regressar sãos e salvos à terra natal.

Há, no entanto, que refletir, um pouco, quanto ao posicionamento dos portugueses, nos finais do século XIX e princípios do século XX, sobre o que pensavam e demonstraram, por atos e atitudes várias, acerca dos territórios que fizeram parte do império ultramarino, para contrariar a opinião publicada, nos dias de hoje, que atribui, exclusivamente, ao Estado Novo, a responsabilidade pela defesa intransigente dos chamados territórios do Ultramar. Têm sido, deliberadamente, omitidos os acontecimentos verificados em 1890, durante o Ultimato inglês, que provocou uma onda de indignação na classe política portuguesa e em várias camadas da população. Nessa época, foram várias as manifestações de repúdio provindas da sociedade civil de que destaco o ataque à casa do cônsul inglês, com a destruição do emblema britânico; a concentração de mais de 15 mil pessoas defronte das Cortes, para vaiarem os «traidores» que capitularam, perante as exigências britânicas; lojas da baixa lisboeta, ostentavam letreiros, anunciando que nada se comprava nem vendia aos ingleses; formaram-se, em todo o país, dezenas de comissões patrióticas; ouviu-se pela primeira vez a canção A Portuguesa que, depois da implantação da República, viria a ser o hino nacional; e pasme-se no que os professores dos liceus reclamavam, como defesa nacional, ao proporem que se eliminasse a língua inglesa do ensino. Se tivermos em conta o envio de mais de 30 000 homens para Angola e Moçambique, no decorrer da Grande Guerra de 1914-18, para defesa da soberania nacional, não podemos olvidar que ao longo da nossa história, independentemente, do regime político existente (monarquia, república ou ditadura), os portugueses, na sua esmagadora maioria, sempre apoiaram e defenderam a manutenção dos territórios que a gesta dos descobrimentos nos legou.

Escamotear estes factos só contribui para deturpar a verdade histórica e alimentar a demagogia.

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