Terça-feira, 18 de Junho de 2024
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João Ferreira
João Ferreira
Investigador, Professor do Ensino Superior

A solidão do Papa Francisco (II)

Foram previsíveis os apelos do Papa Francisco.

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Nas suas intervenções em Lisboa reafirmou a sua vontade de escancarar as portas da Igreja Católica, exprimindo-se através da já famosa frase “Repitam comigo: Todos, todos, todos!”. Este pedido revela um facto que não é segredo nenhum, o de que grande parte dos católicos praticantes rejeitaram, até aqui, esta grande abertura que o Papa tanto ambiciona. Se não fosse assim, o Papa não tinha de pedir, como repetidamente é obrigado a fazer. A verdade é que, há já largas décadas, a Igreja Católica e o catolicismo em geral têm perdido fiéis para os sectores mais secularizados da sociedade. E se é verdade que as fileiras dos não afiliados (ateus e agnósticos) têm aumentado, mais preocupante ainda para a Igreja será que os cristãos não praticantes tenham posições muito mais parecidas com os não afiliados do que com os cristãos praticantes. Este fenómeno terá razões complexas e profundas, que não serão apenas explicadas pela perda da autoridade teológica para a epistemológica. A religião é uma questão de fé, a ciência é matéria de facto. As duas podem coexistir sem ameaça existencial.

O problema reside no facto de que um certo abandono e desinvestimento na Igreja Católica atinge desproporcionadamente os setores mais progressistas da sociedade, desiludidos com as teimosias e pecados desta Instituição. Na Igreja ficam assim em maioria aqueles para os quais a mudança mais assusta, a doutrina católica mais agrada, o relativismo contemporâneo mais objeta e os absolutismos morais mais desejam. Não me compreendam mal, não venho aqui fazer juízos de valor, de quem tem mais ou menos razão. Mas é possível que a falta de pluralidade e de visões dissonantes na Igreja, que aliás reproduz muitos dos fenómenos de tribalização da sociedade nos dias de hoje, tenha no futuro consequências que ainda não compreendemos na totalidade. As posições e opiniões públicas dos Católicos praticantes em muitas matérias aparentam ser, na sua maioria, unanimemente conservadoras, com a exceção quiçá do Papa. Não é assim de espantar que a clivagem entre a Igreja Católica e a sociedade secular continue, teimosamente, a aumentar. E que a Igreja Católica, mesmo nos dias de hoje, pareça anacrónica e descontextualizada. Para mim, são compreensíveis os apelos de Francisco.

São Paulo escreveu aos Coríntios: “Más companhias corrompem os bons costumes”. Mas o que é que acontece quando ficas sempre na mesma companhia, isolado, a conviver com os mesmos e a reafirmar as mesmas convicções? E o que é que são más companhias?

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