Sábado, 3 de Dezembro de 2022
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Paulo Reis Mourão
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Sanções, economia do medo e os senhores da guerra

O Ocidente decidiu usar a arma do cerco económico perante a agressão de Putin à Ucrânia.

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Enquanto os números de baixas entre os beligerantes possibilitam a especulação das narrativas, as estimativas dos custos diretos, indiretos e diferidos para uns, para outros e para nós também não escapam aos leilões mediáticos.
De qualquer modo, o efeito propagandístico das sanções é o mais dependente de uma resolução do conflito de curto prazo. Se o conflito for sanado em breve – e aqui o breve é o mais cínico dos tempos, na medida em que todos desejávamos que jamais o mesmo tivesse eclodido – os defensores das sanções terão sempre a argumentária preparada. “As sanções ajudaram…” ouvir-se-á com a reflexiva “se tivesse (o conflito) durado mais, as mesmas teriam feito um ricochete económico mais significativo contra nós”.

No entanto, quer o Bloqueio Continental de Napoleão quer o Bloqueio a Cuba funcionaram muito mais para os parlamentares bloqueadores do que para a generalidade das partes. Em contrapartida, poder-se-á até argumentar hoje que ajudaram ao crescimento de ideias românticas (de ambos os lados), uniram os bloqueados com os apiedados e dinamizaram os mercados negros que se riem sempre dos bloqueios formais. E acima de tudo mudaram e mudam os centroides dos comércios globais dessas épocas e os da nossa.

Se o conflito durar ou escalar, o cerco fica fragilizado enquanto estratégia económica. O ricochete virá, quer sobre a forma de preços agravados, quer sobre a forma de novos países fornecedores que passarão a abastecer/controlar os (nossos) mercados afetados (e regulados por terceiros), mas também o ricochete virá sobre mais uma reedição da Economia do Medo, agora reeditada na Economia dos Blocos. O sonho da convivência entre países ficou exposto. O leão já não dorme com o cordeiro – percebemos agora que o instinto leonino será sempre o de se alimentar a começar pelo cordeiro que tem ao lado.
E perante as tréguas desse novo período económico – que poderá durar meia-dúzia de meses ou de anos, independentemente da longevidade dos líderes dos blocos – faremos o que se faz sempre na Economia do Medo: reforçaremos os gastos em segurança, desenharemos novas arquiteturas geoestratégicas, procuraremos ser da equipa maior, mais forte, mais poderosa, mais ameaçadora. Daquela que controla os preços, as quotas, os mercados. Daquela que ganha, expandindo-se. Haverá corridas – para lá do óbvio: ao armamento – haverá corridas aos políticos másculos, às políticas de afirmação, ao exibicionismo dos modos de vida, à santidade das nossas causas, do nosso consumo, dos nossos valores. Mas sempre contra os dos outros, duvidando sempre dos outros, jamais confiando nos outros. Reforçar-se-ão os laços de dependência – proteges-me e proteger-te-ei. Estás comigo e estarei a teu lado. Chavões próprios de uma era dominada pela Economia do Medo – a Idade Média – ou da lei nas favelas e nas suburras. Nessa altura e nesses espaços, os principais agentes eram (como são) os homens armados, os Senhores da Guerra. E a segurança o maior capital desses quadros.

Em síntese, temos o regresso do feudalismo, agora a uma escala global, recordando-nos que a paz – como então se sabia e como agora reaprenderemos – é sempre o melhor investimento.

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